Cultura
Festival Varadouro retoma força em 2025 e conecta cultura amazônica à Semana Chico Mendes
Cultura

O Festival Varadouro está de volta em 2025 e ressurge com ainda mais intensidade, fortalecendo sua identidade como um dos principais eventos de expressão artística amazônica e latino-americana. Após a COP30, o fluxo cultural que nasce das mobilizações socioambientais ganha novo fôlego nas ruas, palcos e territórios do Acre, e encontra no Varadouro o ponto de partida dessa grande correnteza de vozes, causas e celebrações.
Com realização da Eita Pau Produções e do Comitê Chico Mendes, o festival acontece nos dias 12, 13 e 14 de dezembro, no Clube Juventus, reunindo shows, oficinas, batalhas de MCs e ações voltadas ao fortalecimento da cultura produzida na Amazônia. Este retorno marca não apenas a retomada de um espaço simbólico para a juventude e para a arte do estado, mas também um reencontro com a memória de resistência que atravessa o Acre há décadas.
Uma das grandes novidades desta edição é sua integração direta com a Semana Chico Mendes 2025, que ocorrerá, entre os dias 15 e 22 de dezembro, em Rio Branco e Xapuri. A onda cultural que se forma no Festival Varadouro avança para o encontro anual que celebra o legado do líder seringueiro, mobilizando ativistas, pesquisadores, juventudes, lideranças comunitárias e a sociedade em geral. Trata-se de uma grande travessia cultural e política que liga COP30, Festival Varadouro e Semana Chico Mendes em um mesmo território de luta, arte e esperança.
É importante destacar que o Varadouro reafirma seu compromisso com a diversidade de expressões, a preservação das identidades e a ampliação do debate sobre cultura, território e direitos socioambientais. Cada atração, oficina ou roda de diálogo ajuda a reacender a chama da produção cultural independente, evidenciando a força dos artistas, coletivos e movimentos que constroem diariamente a cena acreana.
A produtora cultural e organizadora da ação, Karla Martins, celebrou o retorno do Festival Varadouro, destacando que esta edição marca a realização de um sonho antigo da cena musical acreana. “Finalmente, o Festival Varadouro está de volta do jeito que nós sempre sonhávamos, voltando para rearticular a cena acriana, com um line-up enorme, muitas bandas, muitos artistas, absorvendo o máximo que tem da música autoral acreana”, afirmou. Para ela, o festival cumpre um papel essencial ao fortalecer a produção feita no próprio território, estimulando o público a valorizar a música local. “Acho que é muito importante imaginar isso, que lugar que a gente vai ocupando com aquilo que é realmente produzido nos nossos territórios e não somente aquilo que vem das rádios, das grandes mídias, como a gente estimula a sociedade a aproveitar, a curtir, a afluir os seus artistas, a ouvir a música acreana que tem identidade e ser considerada uma música que faz sentido para quem ouve”, completou.
Karla também destacou o poder simbólico da retomada do evento após 15 anos, reforçando que o Varadouro volta a conectar diferentes gerações. “Acho que essa é a premissa principal do Varadouro, né? Voltar com isso, rearticular a cena, a gente já está vendo as pessoas falando: eu fui no festival, eu era muito criança, eu ouvi falar, minha mãe ia”, disse. Para a produtora, o festival se torna “multigeracional”, capaz de reunir tanto quem viveu o auge das primeiras edições quanto quem nunca teve a chance de assistir. “Ele retoma um processo de visibilização intensa e orgânica do que é produzido artisticamente no território. Acho que isso é muito importante, a Amazônia tem buscado esse lugar, a ocupação do espaço com aquilo que é produzido de fato nela mesma. Então acho que esse é um momento muito, muito especial”, pontuou.
O Festival Varadouro é financiado pela Fundação Elias Mansour, Governo do Estado do Acre, PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) e Governo Federal, e realizado pela Eita Pau Produções e pelo Comitê Chico Mendes, com apoio da Casa Ninja Amazônia, Abrafin, Som.vc e do Circuito Amazônico de Festivais.
Cultura
18º Circuito Junino de Rio Branco começa com espetáculos que unem tradição, memória e reflexão

Amor Junino, Explode Coração e Matutos na Roça levam ao tablado histórias que abordam infância, memória popular e enfrentamento à violência contra a mulher – Foto: Assessoria
O 18º Circuito Junino de Rio Branco começa nesta sexta-feira (12), na Praça da Revolução, reunindo algumas das principais agremiações do estado em uma disputa que promete emocionar o público e movimentar o cenário cultural acreano.
Responsáveis por abrir a programação da competição, as quadrilhas Amor Junino, Explode Coração e Matutos na Roça apostam em espetáculos que vão além das tradicionais evoluções coreográficas. Neste ano, os grupos levam ao tablado enredos que dialogam com questões atuais, valorizam a memória coletiva e utilizam a cultura popular como instrumento de reflexão social.
As apresentações mostram uma tendência cada vez mais presente nos festivais juninos: a união entre tradição e dramaturgia, transformando o arraial em um espaço onde dança, teatro, música e identidade cultural caminham juntos.

Amor Junino retorna aos arraiais com uma viagem à infância
A primeira apresentação da noite será da Quadrilha Amor Junino, fundada em 2014 e reconhecida por desenvolver ações voltadas à valorização da cultura popular. Após enfrentar um período de afastamento das atividades, a agremiação retorna ao circuito trazendo um espetáculo que promete despertar lembranças em diferentes gerações.
Com o tema “Do Clique ao Pique”, a quadrilha propõe uma reflexão sobre a transformação das relações humanas em uma era dominada pela tecnologia. A narrativa parte de uma pergunta simples: o que aconteceu com as brincadeiras que marcaram a infância de milhões de brasileiros?
Ao longo da apresentação, o público será conduzido por um universo inspirado nos quintais, ruas e praças onde crianças passavam horas brincando antes da popularização dos celulares, tablets e redes sociais. O espetáculo resgata atividades tradicionais como pega-pega, esconde-esconde, brincadeiras de roda e diversas outras manifestações que fazem parte da memória afetiva do país.
A proposta visual acompanha essa narrativa. Os figurinos utilizam cores vibrantes e elementos inspirados no universo infantil, enquanto as coreografias transformam brincadeiras e lembranças em movimentos carregados de energia e significado.
O tradicional casamento junino também ganha uma releitura especial. A história dialoga com referências presentes no imaginário popular, como Alice no País das Maravilhas e Sítio do Picapau Amarelo, criando um ambiente lúdico onde fantasia e realidade se encontram.
Segundo a proposta da quadrilha, o espetáculo busca lembrar que algumas das experiências mais importantes da vida continuam sendo aquelas construídas por meio do convívio, da amizade e das relações humanas.

Explode Coração aposta em histórias que ficaram fora dos livros
A segunda junina da noite será a Explode Coração, que apresenta o espetáculo “Era uma vez, um conto que a história não conta”.
A proposta da agremiação parte de uma provocação: nem todas as histórias ganharam espaço nos registros oficiais, mas muitas delas continuam vivas na memória popular. É justamente nesse universo que a quadrilha constrói sua narrativa para a temporada de 2026.
O espetáculo convida o público a atravessar os limites do imaginário para conhecer personagens invisibilizados e narrativas esquecidas ao longo do tempo. Inspirada no folclore, nas tradições orais e nas histórias transmitidas entre gerações, a apresentação busca dar protagonismo àqueles que ficaram à margem dos contos tradicionais.
Ao questionar quem escreve a história e quais vozes acabam sendo silenciadas, a Explode Coração propõe uma reflexão sobre memória, identidade cultural e pertencimento. A narrativa pretende mostrar que existem inúmeras histórias que nunca chegaram aos livros, mas continuam presentes no imaginário coletivo.
Para dar vida a esse universo, a quadrilha aposta em uma produção visual marcante. Figurinos, cenários e elementos cênicos foram desenvolvidos para transportar o público a um ambiente onde o encantamento se mistura à crítica social e à valorização da cultura popular.
A expectativa é que a apresentação transforme o tablado em um espaço de fantasia e descoberta, conduzindo os espectadores por histórias que resistiram ao tempo mesmo sem terem sido oficialmente registradas.

Matutos na Roça leva ao arraial uma denúncia contra a violência doméstica
Fechando a primeira noite de apresentações, a Matutos na Roça chega ao Circuito Junino com um dos temas mais fortes da temporada.
Com o espetáculo “Hoje Eu Recebi Flores”, a tradicional quadrilha do bairro Aeroporto Velho utiliza a cultura popular para abordar a violência doméstica, o feminicídio e a importância da denúncia como instrumento de proteção às mulheres.
O enredo acompanha a trajetória de Narraiane Duarte, personagem marcada pela violência desde a infância. Ainda criança, ela presencia as agressões sofridas pela mãe e carrega consigo traumas que influenciam sua vida adulta. Anos depois, prestes a se casar, acredita ter encontrado felicidade, mas passa a reviver um ciclo de violência semelhante ao que testemunhou dentro de casa.
O título do espetáculo faz referência a uma realidade conhecida por muitas vítimas de relacionamentos abusivos: as flores que chegam acompanhadas de pedidos de desculpas após episódios de agressão. A quadrilha utiliza esse simbolismo para mostrar como o abuso frequentemente se esconde atrás de promessas de mudança e demonstrações aparentes de afeto.
Ao longo da narrativa, surgem personagens que representam acolhimento, justiça e apoio às vítimas. As chamadas Três Marias assumem papel central na história ao identificarem os sinais da violência e incentivarem a protagonista a romper o silêncio.
A dramaturgia inclui ainda referências à Lei Maria da Penha, à rede de proteção às mulheres e aos mecanismos de denúncia. Em um dos momentos mais marcantes da encenação, a protagonista utiliza a estratégia conhecida como “pedir uma pizza” para acionar ajuda sem despertar suspeitas do agressor.
Além da temática social, a Matutos na Roça preserva elementos tradicionais das quadrilhas acreanas. O espetáculo reúne cerca de 90 componentes, mantendo passos característicos, evoluções juninas e a identidade cultural que transformou a agremiação em uma das mais vitoriosas da história do movimento junino no Acre.
A primeira noite do Circuito Junino coloca frente a frente três propostas completamente diferentes. Enquanto a Amor Junino revisita as brincadeiras que marcaram gerações, a Explode Coração mergulha em histórias esquecidas pela memória oficial e a Matutos na Roça utiliza o tablado para discutir uma das mais graves questões sociais do país. A diversidade dos temas mostra como as quadrilhas acreanas têm ampliado seus horizontes criativos sem abrir mão das raízes que fazem do São João uma das manifestações culturais mais fortes da região.
O18º Circuito Junino de Rio Branco é promovido pela Liga de Quadrilhas Juninas do Acre (Liquajac), em parceria com a prefeitura de Rio Branco e conta com a participação de juninas filiadas à entidade.

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