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Tribunal de Contas suspende contrato de R$ 9,5 milhões da Seict após identificar indícios de irregularidades na execução dos serviços
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Tribunal determinou a interrupção dos pagamentos, incluiu secretário no processo, notificou órgãos que aderiram à ata e encaminhou o caso ao MP para apuração.
O Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) decidiu suspender, por meio de medida cautelar aprovada por unanimidade, os pagamentos relacionados a um contrato firmado entre a Secretaria de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia (Seict) e a empresa Hydros Consultoria e Desenvolvimento LTDA. O acordo, avaliado em R$ 9,56 milhões, prevê a implantação de um sistema de compras governamentais e a prestação de serviços na área de tecnologia da informação.
A decisão foi tomada durante sessão realizada nesta quinta-feira (16) e acompanhou o voto da conselheira-substituta Maria de Jesus Carvalho de Souza, relatora do processo. Os conselheiros Ronald Polanco, Jorge Malheiro, Naluh Gouveia e Mário Sérgio Neri também votaram favoravelmente à concessão da cautelar.
De acordo com a fiscalização realizada pelo corpo técnico do TCE, uma das principais preocupações é a ausência de comprovação de que a plataforma tecnológica contratada esteja efetivamente disponível para utilização pela Seict. A situação levantou dúvidas sobre a regularidade dos pagamentos realizados diante da possível inexistência da entrega dos serviços previstos no contrato.
O relatório elaborado pelos auditores aponta que, durante inspeção na sede da secretaria, não foram encontradas evidências suficientes que demonstrassem a implantação da solução tecnológica nem a execução de serviços como suporte técnico, manutenção, sustentação operacional e demais obrigações assumidas pela empresa contratada.
Além da interrupção dos pagamentos do contrato principal, o Tribunal também determinou a suspensão dos repasses vinculados à Ata de Registro de Preços nº 01/2026. A medida alcança órgãos que aderiram ao registro, entre eles o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre) e a Secretaria Municipal de Gestão Administrativa de Rio Branco (SMGA), que deverão ser formalmente comunicados da decisão.
Segundo o TCE, aproximadamente R$ 6,4 milhões já foram pagos à empresa, valor correspondente a cerca de 70% do montante total contratado. Os auditores também identificaram indícios de possíveis irregularidades tanto na fase da licitação quanto na execução contratual, incluindo questionamentos sobre a competitividade do certame, elaboração do orçamento e eventual direcionamento da contratação.
Como parte das determinações, o Tribunal incluiu o atual secretário de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia, Márcio Valter Agiolfi, entre os responsáveis pelo processo. Também foram citados agentes públicos e representantes da empresa Hydros Consultoria e Desenvolvimento LTDA, que terão prazo de 15 dias para apresentar defesa e esclarecer os fatos apontados pela fiscalização.
Em nota, a Seict informou que ainda não havia sido oficialmente notificada sobre a decisão cautelar, mas afirmou que adotará todas as medidas cabíveis em conformidade com os princípios da legalidade. O Deracre também declarou que já havia instaurado procedimento administrativo para analisar a contratação antes mesmo da divulgação da decisão do Tribunal. Paralelamente, o TCE determinou o envio das informações ao Ministério Público do Estado do Acre (MPAC), que poderá avaliar o caso e adotar as providências que considerar necessárias.
Nota da Seict
A Secretaria de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia (Seict) informa que ainda não foi formalmente notificada da referida decisão mencionada.
Assim que houver a ciência oficial do seu teor e consequente aprofundamento técnico sobre o assunto, a equipe técnica e jurídica da Secretaria fará a análise detalhada dos fundamentos e adotará todas as providências cabíveis, sempre com respeito às decisões dos órgãos de controle e observando os princípios da legalidade, da transparência e da boa gestão dos recursos públicos.
A Seict reafirma seu compromisso com a transparência e bom uso dos recursos públicos e permanece à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários, no momento oportuno.
Nota do Deracre
O Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre) informa que, antes da divulgação da medida cautelar expedida pelo Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC), já havia instaurado procedimento administrativo para análise da anulação do Contrato nº 05/2026, decorrente da Ata de Registro de Preços nº 01/2026.
A autarquia esclarece que, até o momento, não foi formalmente notificada da decisão cautelar.
Nos termos da Lei Federal nº 14.133/2021, a anulação de contratos administrativos deve observar o devido processo legal, com a garantia do contraditório e da ampla defesa à empresa contratada. Por essa razão, o processo administrativo já se encontrava em análise jurídica para a adoção das providências cabíveis.
O Deracre informa, ainda, que não houve execução do objeto contratual, bem como não foram realizados pagamentos ou quaisquer repasses financeiros à empresa contratada no âmbito do Contrato nº 05/2026.
A autarquia reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, a segurança jurídica e o cumprimento das determinações dos órgãos de controle.
Gilberto Lucas de Oliveira, Presidente do Deracre
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Decisão judicial devolve 50 ônibus às ruas, mas população cobra explicações sobre o colapso do transporte coletivo em Rio Branco

Retorno de 50 veículos ameniza o caos, mas população cobra respostas sobre anos de abandono – Foto: Lucas Thadeu/ Rede Amazônica
A decisão da Justiça que autorizou o retorno de 50 ônibus ao transporte coletivo de Rio Branco representa um alívio momentâneo para milhares de passageiros. No entanto, a medida também evidencia a dimensão da crise enfrentada pela capital acreana, onde trabalhadores, estudantes e idosos passaram semanas convivendo com um sistema praticamente colapsado por falhas de gestão e ausência de planejamento.
Desde a apreensão dos veículos no fim de junho, a cidade passou a operar com apenas 39 ônibus, número muito inferior ao necessário para atender a demanda diária. O resultado foi imediato: pontos de ônibus lotados, viagens demoradas, veículos superlotados e uma rotina de sofrimento para quem depende exclusivamente do transporte público.
O episódio revelou a fragilidade do modelo adotado pela Prefeitura de Rio Branco para administrar o sistema. Enquanto empresas discutiam contratos e disputas judiciais, a população ficou refém de um impasse que poderia ter sido prevenido com maior fiscalização, planejamento e mecanismos capazes de evitar que um conflito empresarial atingisse diretamente milhares de usuários.
A situação ultrapassou os transtornos cotidianos e provocou impactos em diversos setores da cidade. Trabalhadores passaram a enfrentar atrasos constantes, muitos temendo advertências ou até mesmo a perda do emprego. Famílias tiveram dificuldades para cumprir compromissos médicos, estudantes perderam aulas e a mobilidade urbana entrou em um dos momentos mais críticos dos últimos anos.
O reflexo mais grave ocorreu na Universidade Federal do Acre (Ufac), que precisou suspender as atividades presenciais após constatar que grande parte dos estudantes não conseguia chegar ao campus. A paralisação das aulas simbolizou o tamanho do problema e escancarou como a deficiência do transporte coletivo compromete direitos básicos, como o acesso à educação.
Para garantir a liberação da frota, a Prefeitura ingressou no processo judicial e realizou um depósito superior a R$ 2,8 milhões, valor considerado suficiente pela Justiça para assegurar os interesses discutidos na ação envolvendo os veículos da empresa Ricco Transportes e Turismo. A decisão determinou ainda que os ônibus sejam preservados e retornem imediatamente à operação, desde que estejam em condições de circulação.
Embora o retorno dos veículos deva reduzir o tempo de espera e aliviar a superlotação, especialistas apontam que a medida resolve apenas parte do problema. A crise demonstrou que o sistema permanece vulnerável e dependente de decisões judiciais para continuar funcionando, realidade incompatível com um serviço público considerado essencial.
Paralelamente, a administração municipal mantém o processo de transição para uma nova empresa responsável pelo transporte coletivo. A promessa é de modernização da frota, com ônibus novos, climatizados, equipados com Wi-Fi, carregadores para celular e monitoramento em tempo real. Entretanto, diante do histórico recente, muitos passageiros receberam o anúncio com desconfiança e aguardam resultados concretos antes de acreditar em mudanças efetivas.
A crise também levanta questionamentos sobre a responsabilidade do poder público na fiscalização dos contratos e na elaboração de um plano de contingência. Para muitos usuários, não é aceitável que uma capital fique praticamente sem transporte coletivo por causa de uma disputa judicial entre empresas, enquanto a população paga a conta com horas perdidas, prejuízos financeiros e insegurança.
Com a frota reforçada, a expectativa é de uma melhora gradual no atendimento. Ainda assim, o episódio deixa uma marca negativa para a gestão municipal e reforça que a recuperação da confiança da população dependerá não apenas da volta dos ônibus às ruas, mas da construção de um sistema eficiente, transparente e capaz de impedir que o transporte público volte a mergulhar em uma crise que penaliza justamente quem mais depende dele.
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