O reencontro do Brasil com a civilização passa pelo o ex-presidente Lula

Bolsonaro é resultado de um deboche mal resolvido somado à tradição secular brasileira de se apiedar da estupidez alheia.

Por Gustavo Conde 

Bolsonaro foi tratado como doente nos trinta anos em que operou como engrenagem secundária de um sistema político apodrecido.

Elege-se um doente por comiseração, não por identificação. Na compreensão ampla de democracia, todas as tendências têm o seu direito a um quinhão de representação: os realizadores, os destruidores e os doentes (ou párias).

É o preço de se levar ao pé da letra o significado de democracia. É uma armadilha semântica e conceitual: em tese, ‘todos’ significa ‘todos’, até os destituídos da razão historicamente constituída.

Esse corolário democrático, evidentemente, deveria passar por proporções. À bestialidade reservar-se-ia pequenos nichos de representação, sobretudo para que se não esqueça da sua existência e materialidade.

Ocorre que a linguagem não é um animalzinho dócil e comportado. Do alto de uma democracia dos sentidos, a instituição ‘língua’ não pende naturalmente para o caminho racional da civilização.

A luta pelos sentidos é selvagem, violenta e predatória. Isso está em todo e qualquer livro sério de linguística do discurso, ciência política e/ou psicanálise que tenha sido escrito a partir dos anos 70.

A linguagem permite e comporta dissimulações, mentiras, blefes, distorções e ‘retorsões’ ideológicas de toda sorte. Sua organização semântica interna é produzida pela história e, portanto, a linha divisória entre a sanidade e a doença é também histórica.  

A história nos trouxe até aqui, a essa ‘normalização’ do absurdo. Replica-se um movimento inclusivo de outro campo discursivo, o campo médico dos distúrbios. É delicado e arriscado fazer a analogia, mas eu não tenho medo (porque se trata de uma questão de ordem técnica): ao se encarar o distúrbio como ‘diferente’, o ‘inclusionismo’ abre um precedente para outros campos do discurso.

É preciso dizer que não critico as políticas de inclusão, pelo contrário. Critico o seu simulacro, sua deturpação aplicada a outro campo do sentido, o campo da ética.

No mundo da ética, não há espaço para ‘inclusão’. Não se pode acolher o fascismo como um sentimento apenas ‘diferente’. Não se pode ressignificar aberrações anticivilizatórias a título de ‘democracia das ideias’. Isso caracteriza um simulacro de democracia e de inclusão.

Beira o risível, mas foi exatamente esse movimento semântico que se alastrou por nossa compreensão da realidade, sempre atravessada por muitas variáveis de ordem simbólica, estrutural e semiótica.

Toma-se a apologia ao estupro, a defesa da tortura, a incitação à violência e a fuga de debate como ‘direitos’ inseridos no bojo da ‘civilização’. Mais que ‘normalizado’, esse conjunto anti-histórico de vocalizações é, na verdade, ‘normatizado’.

O próprio direito vem tendo severas dificuldades em lidar com esse solavanco semântico. As invasões das universidades por forças policiais são a expressão máxima dessa descompensação dos sentidos. Ao se desabitar o campo da ética – de posse de uma lógica rudimentar – aniquila-se os parâmetros da humanidade e da própria democracia, em seu sentido amplo e conceitual.

Essa é a mola propulsora do retrocesso civilizatório embutido em Bolsonaro. Por isso ela é tão complexa e tão desafiadora. Fulanizou-se o caráter, a ética e a civilização, e esse processo tem também uma explicação independente.

Ao se insuflar o antipetismo anos a fio, com narrativas justiceiras e finalistas (“o fim da corrupção”), a imprensa, juntamente com segmentos conservadores da sociedade, abriu as condições para o advento da barbárie como estilo de vida.

O antipetismo nada mais é do que a anticivilização, a antivida, a antidemocracia. Do ponto de vista semântico, não há escapatória para esse vaticínio, com o perdão do apelo à verdade.

Porque, ao se contrapor ao ‘petismo’ (ou ao simulacro de ‘petismo’), parte da sociedade se contrapôs à inclusão social, à valorização do salário mínimo, à autoestima soberana, à democracia educacional, ao debate público permanente, à aceitação das derrotas eleitorais (o PT nunca contestou resultado de eleições), enfim, a todo um conjunto de sentidos associados à civilização e à democracia.

Era óbvio que o resultado disso seria a criação de um monstro fascista e totalitário.

Não foi, no entanto, só isso. Somada à baixeza moral que foi e é o antipetismo, a omissão em se denunciar e punir o bolsonarismo potencializou o poder de desagregação política que essa onda anticivilizatória promove.

A imprensa brasileira protegeu o bolsonarismo, apenas denunciado suas atrocidades aos 45 minutos do segundo tempo. É por isso que a tendência final das eleições é de virada para Fernando Haddad (PT).

O resultado de uma década inteira estimulando o antipetismo e de dois anos protegendo o bolsonarismo – o seu contrário, em termos políticos e semânticos – é o mergulho em uma onda fascista jamais imaginada por nenhum cientista político.

Esses movimentos da linguagem são muito poderosos e muito difíceis de reverter. Não há estratégia possível contra eles. Só a história, em sua inteireza coletiva e cronológica, tem a força para erodir retrocessos como esse que, a rigor, é também histórico.

A história brasileira, no entanto, está aprisionada. Está detida em nossa Guantánamo particular, também chamada de ‘Curitiba’. Lula é o único político no mundo que entra em relação de sinonímia com a história. Ele ‘é’ a própria história encarnada em um sujeito.

Sua força, ainda que proscrita de maneira ilegal da cena do discurso e do debate, resiste e marca posições. Independente de qualquer resultado dessas eleições, o reencontro do Brasil com a civilização passa por Lula.

Ele tem a senha, o código, a legitimidade, a alma, o espírito e a inteligência para furar essa bolha de ódio que sequestrou o Brasil.

Mesmo com a vitória de Fernando Haddad – que se mostra difícil e desafiadora – as pazes com a democracia irão requerer o maior líder político vivo do planeta.

Política é sentido. É a possibilidade mesma de produzir sentido na civilização e no infinito complexo que caracteriza a linguagem humana.

Política não é política – sic. O sentido de política também foi criminalizado por nosso incipiente pensamento classista da sociologia de auditório. Política é linguagem. É a arena onde se disputam sentidos.

Essa eleição aboliu a disputa justamente porque um de seus lados não se submete à disputa democrática.

Se a população brasileira conseguir dar uma resposta neste domingo a esse sequestro civilizatório, será um feito e tanto. A experiência e a literatura mostram que ondas de ódio dessa magnitude levam mais tempo para serem vencidas.

De qualquer forma, o contra-movimento a essa estupidez generalizada já começou e vai produzir igualmente a maior reação democrática e humanista de toda história. Porque, são os movimentos naturais do discurso e do sentido: a profunda civilização do PT abriu espaço para a devastação desumanizada e torpe do bolsonarismo.

O bolsonarismo, mesmo derrotado nessas eleições, vai perdurar e ter-se-á que combatê-lo.

E esse bolsonarismo também irá reorganizar o espectro político, aproximando antigos adversários – o que já ocorre neste exato momento.

A história pode ser tomada pelo modo ‘civilização’, mas o que a estrutura é apenas um protocolo simbólico (o protocolo simbólico mais complexo possível): a linguagem humana. Como as partições do sujeito – id, ego e superego – a história tem também sua tripartição.

A história, aparentemente, é composta por ego-civilização, id-linguagem e superego-força bruta. E, tal como a psicanálise postula, o inconsciente (o id) não dispõe de padrões morais. É preciso o ‘eu’ e o gesto revolucionário e utópico da resistência seguida de mudança para que a civilização prossiga seu curso e nos permita viver uma vida plena de sentidos.

O embate, neste momento, é de movimento versus paralisia. O movimento é a civilização, é a democracia, é Fernando Haddad. E a paralisia é a barbárie, é o totalitarismo, é Bolsonaro.

A luta sempre só começa. A busca por direitos jamais se encerra. A afirmação da civilização deve ser conquistada todos os dias, a todo o momento.

O resultado desta eleição já é uma demonstração de força inequívoca da sociedade democrática brasileira. Porque, caso a verdade vença, apenas daremos início à reconquista da democracia. E caso a mentira vença, também iremos dar início a essa mesma reconquista.

O auto aniquilamento, o suicídio, a brutalidade, a paralisia são apenas subprodutos de um espancamento da linguagem, linguagem esta que, à sua maneira, responde, abrindo espaço para a reação política.

Diante desta devastação que tomou conta do país, todos nós teremos de aprender a fazer política de novo. Para não errar mais, para não brincar mais, para não morrer mais.

Veja o Vídeo da entrevista com o vereador Mario Jorge

Vereador  conta um pouco sobre a sua trajetória e fala principalmente sobre o seu afastamento. Mário Jorge fala também que tinha pessoas interessadas em fazer com que ele perdesse seu mandato.

Durante a entrevista prestada pelo Vereador Mário Jorge ao 3 de Julho Entrevistas, afirmou que armaram contra ele com relação ao processo de afastamento.

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