Sem apoio, ONGs resgatam quase 600 animais por ano em Rio Branco

Organizações alegam falta de apoio da prefeitura e pedem ajuda com medicações, consultas e ração. Voluntários pedem criação de políticas públicas para conscientizar população.

As organizações não-governamentais que atuam em Rio Branco afirmam que fizeram, juntas, o resgate de 596 animais vítimas de maus-tratos durante o ano de 2017. Nos primeiros quatro meses deste ano, as organizações já resgataram 268 bichos.

Sobrevivendo de doações, as três ONGs ouvidas pela reportagem decidiram suspender os resgates até quitarem dívidas com clínicas veterinárias que ultrapassam R$ 10 mil.

A principal reclamação dos voluntários é a falta de políticas públicas e ajuda com medicamentos, ração e principalmente castração dos animais por parte da Prefeitura de Rio Branco. A reportagem entrou em contato com a prefeitura, mas não obteve o posicionamento do órgão até a publicação da matéria.

Os voluntários também lamentam a falta de atendimentos na unidade veterinária da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Rio Branco. A situação causou protesto de alunos, em fevereiro deste ano, que alegavam prejuízos devido a falta de materiais para aulas práticas do curso.

A Ufac informou que os atendimentos foram suspensos pois fizeram a licitação de material e aguardam a entrega. No local, atua a Animália Empresa Júnior de Medicina Veterinária que suspendeu os atendimentos devido a falta dos materiais necessários.

A ONG Sociedade Amor a Quatro Patas afirma que atendeu 296 animais em 2017 e gastaram R$ 53.750,90 tudo fruto de doações. Este ano, 156 animais foram resgatados por eles até o mês de abril. Somente neste mês de maio eles já possuem 18 animais internados e uma dívida de R$ 10.757,50, sendo R$ 8 mil em apenas uma única clínica. Até quitarem a dívida os resgates seguem suspensos.

A voluntária Nicole Lemos, que faz parte da gestão da ONG, diz que os principais atendimentos são de casos de abandono e atropelamentos. Ela conta que conseguem ajuda do Centro de Zoonoses que ajuda com algumas castrações em feiras de adoção, mas os números são limitados.

“A gente depende totalmente de ajuda, fazemos isso por amor. Usamos a nossa página no Facebook para mostrar nosso trabalho e pedir que as pessoas façam doações. Infelizmente, não temos ajuda da prefeitura o que é diferente em outros estados. Fazemos castração, consultas e tudo por conta própria. Usamos dinheiro do nosso bolso, pois precisamos quitar as dívidas”, relata Nicole.

Falta de apoio

A ONG Patinha Carente também decidiu suspender os resgates devido as dívidas. Em 2017 foram 300 resgates. Nesses quatro meses de 2018 eles já tiraram 80 animais das ruas. Porém, assim como a Sociedade Amor a Quatro Patas, eles não possuem abrigo para os bichos e pedem ajuda com lares provisórios até que consigam uma adoção definitiva.

Devido às dívidas, a organização anunciou, na quinta-feira (3), que iria encerrar as atividades em Rio Branco. Atualmente existem 30 animais sob responsabilidade da organização, sendo que desses, ao menos 10 estão internados em clínicas e 20 em lares temporários. Conforme a gestão da ONG, dos animais internados, pelo menos oito já tiveram alta médica e não encontraram um lar definitivo.

Bono Maia, que faz na organização, relata os mesmos problemas que outras ONGs e reafirma que sobreviviam de doações. As redes sociais eram as principais aliadas para relatar os casos de animais que precisavam de medicamentos, consultas, cirurgias e alimentos. A dívida da organização com clínicas veterinárias chega a R$ 10 mil.

“Acredito que nos últimos dez anos a população está se sentindo mais incomodada com esse descaso e têm tentado ajudar. Não temos parcerias ou convênios com o estado, nem financeiro e nem material. Só temos o apoio de uma clínica onde levamos os animais com um preço mais em conta e que possamos pagar após as arrecadações, mas a dívida está muito alta”, relata.

Aposentada usa casa como abrigo de animais

Sozinha, a ativista Maura Akino já trabalha resgatando animais há 16 anos em Rio Branco. Sem ajuda, ela vai sozinha aos locais onde recebe denúncias dos maus-tratos, leva os bichos aos veterinários e usa o dinheiro da aposentadoria para pagar os atendimentos.

“As ONGs sofrem sem apoio, os protetores individuais como eu se matam para fazer o trabalho que devia ser feito pela prefeitura. Esses animais são responsabilidade da prefeitura. Não estou dando conta de manter o abrigo somente com minha aposentadoria. Duas pessoas estão ajudando com 10 quilos de ração, o resto sai do meu bolso”, relata.

Somente em abril, ela afirma que atendeu ao menos 32 animais, mas não fez um levantamento dos atendimentos nos outros meses. No entanto, afirma que a média é de 2 a 4 resgates por dia. Porém, Maura enfrenta o mesmo problema que as ONGs, as dívidas, e por isso deve fechar as portas.

Maura conta que chegou a abrigar 80 animais em casa, mas conseguiu adoção para 55. No entanto, ainda cuida de 27 gatos e 19 cachorros. Em uma clínica de Rio Branco ela conta que já deve R$ 3 mil e em outra R$ 2 mil.

“Vou ter que fechar o abrigo. Para completar fui ajudar no resgate de uma gata, caí de uma escada e quebrei o joelho. Não consigo andar, eu fazia o trabalho de um grupo e agora não consigo mais. A situação é crítica, estou doente, mas faço de tudo para cuidar dos animais. Infelizmente, não tenho como fazer novos resgates”, lamenta.

Falta de políticas públicas

Todos as ONGs afirmam que são necessárias políticas públicas voltadas para o resgate e combate ao maus-tratos contra animais e conscientização dos donos. Além disso, criações de convênios e fomentos às organizações.

“A cada dia recebemos mais denúncias de animais abandonados, cães largados em quintais sem ter o que comer, espancamento de animais. É muito difícil trabalhar sem ajuda nenhuma. É preciso também uma política pública voltada para a conscientização da população, pois vemos que a maioria das pessoas ainda não conhece a realidade necessária para a criação de animais”, destaca Maia.

Nicole relata ainda que encontrou vários casos cruéis de donos que abandonam animais em sacos plásticos fechados, espancam cachorros que mexem em lixos em busca de comida e deixam ninhadas inteiras nas ruas sem comida.

“É triste a gente ver casos como esses e infelizmente são muito comuns. As vezes, em um resgate, você tem um animal que acabou de parir e temos de ajudar todos. As pessoas não tem consciência de como esses bichos precisam de ajuda, precisam de um lar. É preciso que haja esse trabalho para que os maus-tratos sejam combatidos”, finaliza.

D o G1 Acre

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