Coluna do Amaral

FUNAI descreveu em sua página principal o relato eufórico de cinco indígenas de “recente contato” do igarapé Xinane, do alto rio Envira, que visitaram Feijó – AC, no último sábado, 12, sendo um marco histórico para esse povo que visitou pela primeira vez a cidade. Não se sabe ao certo o que levou este grupo visitar a cidade. Nem o que a frente de proteção etno ambiental, indigenistas e a própria Fundação dialogam com esse povo, ao ponto de resolverem visitar a muvuca dos seres desenfreados dos aglomerados urbanos.

Num primeiro momento, de acordo com o relato dos entes públicos envolvidos no Tour pela cidade de Feijó, leva crer que eles tiveram a iniciativa de visitar o meio urbano. “Ainda tentaram impedir no meio do caminho mas já era tarde.” A coincidência de escolher o Festival do açaí é que intriga. Mas, como o próprio nome diz, são comunidades de “recente contato” e a própria lei legitima as diversas formas de transição até se incorporarem aos civilizados de papéis que se acham na cidadania.

Discutir sobre a existência de formas diferentes de organização social pode ser até importante desde que isso não venha se tornar um assédio de cultura. No entanto, o passeio não parecia algo espontâneo, mas algo induzido. Pero Vaz de Caminha não foi até a aldeia, eles vieram visitar o “reino encantado” dos ocidentais miscigenados. O que seria interessante fazer trocas. Não quinquilharias como no passado, mas conhecimento. Mas o conhecimento do “branco” é bom para o índio? Porque não se faz a inversão de convidar as pessoas da cidade para viverem como índios?

Talvez esqueceram de dizer que a cidade não é mais o lugar do deslumbramento. É aqui o lugar selvagem que o crime organizado manda e desmanda. Onde a lei de silêncio e do toque de recolher faz o silêncio das noites. Que a taxa de homicídios tem sido crescente. Que a miséria ganha espaço e as famílias não tem de onde tirar o sustento e há milhares de famílias que não tem casa própria.

A espetaculização do episódio dos índios conhecerem a cidade com acompanhamento em locais que julga-se importante, remonta uma ideia antiga do Serviço de Proteção ao Índio, 1910, que teve Marechal Rondon uma das referências. Um precursor do aculturamento indígena na Amazônia que defendia o ensinamento de valores cívicos e integração controlada à vida da sociedade moderna.

Os Jesuitas, com destaque para José de Anchieta, também seguiam a mesma ideologia de incorporação aos costumes religiosos, trabalho e a forma de vida dos “brancos ocidentais”, diluindo as diferenças e anulando as crenças, artes, e vivencias de cada um dos povos catequizados.

Nos parece que o “governo da florestania” ignora que há muito tempo essa corrente que até provocou genocídio entre os povos é página negra da história que nas entranhas dos sobreviventes, resistem a perda de suas identidades. As comunidades originárias defendem a necessidade de valorização das diferenças e garantir a reafirmação da identidade indígena.

Entenda o que é aculturação

Aculturação é o conjunto das mudanças resultantes do contato, de dois ou mais grupos de indivíduos, representante de culturas diferentes, quando postos em contato direto e contínuo. Em parte isso é feito pelo próprio governo brasileiro por meio de suas entidades “representativas” que procuram “ajudar” o índio de qualquer maneira levando doenças e buscando cura-las; introduzindo costumes estranhos e língua estranha afim de torna-lo totalmente integrado.

De acordo com a FUNAI os índios brasileiros estão divididos em três classes: os isolados, considerados aqueles que “vivem em grupos desconhecidos ou de que se possuem poucos e vagos informes através de contatos eventuais com elementos da comunhão nacional”; os em via de integração, aqueles que conservam parcialmente as condições de sua vida nativa, “mas aceitam algumas práticas e modos de existência comuns aos demais setores da comunhão nacional”; e os integrados, ou seja, os nativos incorporados à comunhão social e “reconhecidos no pleno exercício dos direitos civis, ainda que conservem usos, costumes e tradições características da sua cultura”.

Segundo a legislação brasileira, o nativo adquire a plena capacidade civil quando estiver razoavelmente integrado à sociedade. Para que tal aconteça, é necessário que tenha boa compreensão dos usos e costumes da comunhão nacional, conheça a língua portuguesa e tenha a idade mínima de vinte e um anos.