Brasil 247 – O ano de 2020 termina com a trágica marca de mais de 1,8 milhão de pessoas mortas pela Covid-19. 2021 começa com a esperança de que a vacina seja a luz no fim do túnel do qual o planeta meteu-se desde que, há um ano, as autoridades chinesas alertaram pela primeira vez sobre uma pneumonia não identificada na cidade de Wuhan.

Mais de 40 países começaram a vacinar sua população na última semana de 2020. Essas quase dois milhões de mortes provocadas pelo vírus, segundo a estatística, incluem apenas os notificados oficialmente com resultados positivos em um exame de PCR. Por isso são dados incompletos e difíceis de comparar por países, já que nem todos seguem a mesma metodologia para seu cômputo, adverte a jornalista Daniele Grasso, de El País, numa reportagem que levantou em detalhes os números da pandemia.

A cifra total de mortes deve ser superior e levará anos para ser determinada com exatidão. O Brasil, por exemplo, é um dos países que menos testes realizou ao longo da pandemia e especialistas alertando que os números reais de contágios e óbitos por covid-19 superam bastante daqueles registrados pelo Ministério da Saúde. De acordo com o IBGE, até novembro 28,6 milhões de brasileiros haviam feito algum exame para detectar se foram infectados — isto é, cerca de 13% da população.

Estados Unidos (342.450 mortes), Brasil (194.949 mortes até quinta-feira, 31), Índia (148.738) e México (124.897) são os países com o maior número de mortes no mundo. Das 15 nações com mais mortos em termos relativos, nove ficam na Europa. O ano de 2021 começa com a apreensão pela nova mutação do coronavírus, detectada inicialmente no Reino Unido e já identificada no Brasil e 56% mais contagiosa, mas também com a ansiedade e a esperança pela vacinação em massa, iniciada em mais de 30 países.

Os dados sobre os óbitos são imperfeitos e difíceis de comparar entre países —como quase todas as cifras desta pandemia —, mas permitem vislumbrar o impacto do vírus em cada lugar. Atualmente, a Europa se debate com uma segunda onda de menor intensidade que a primeira, mas muito mais longa.

Já se registraram mais mortes por coronavírus desde agosto do que antes: 325.000 a partir do começo do verão europeu, e quase 530.000 em todo o ano. Os Estados Unidos, onde mais de 340.000 pessoas morreram de covid-19 desde março, já está em plena terceira onda. Lá os hospitais se saturaram ainda mais do que nas ondas anteriores, e o índice de mortes por dia há várias semanas se mantém acima dos registros dos três primeiros trimestres.

Já o Brasil, que sofre com a negligência do governo Jair Bolsonaro no enfrentamento da pandemia, viu a primeira onda se arrastar até meados de setembro, quando ainda se registrava mais de 1.000 mortes por dia — ao mesmo tempo que governos estaduais e prefeituras flexibilizavam as medidas de distanciamento social. Após um breve intervalo, o país iniciou o mês de dezembro já enfrentando uma segunda onda da pandemia.

O número de óbitos diários voltou a ter três dígitos e especialistas vem alertando dos riscos de colapso dos sistemas públicos de saúde em janeiro. Enquanto vários países já estão vacinando profissionais da saúde, idosos e grupos prioritários, o Brasil ainda não apresentou uma data para o início de um plano nacional de imunização.

A primeira onda foi um tsunami para quase todos os países. A chegada da covid-19 desconcertou até àqueles que havia anos esperavam a chegada de uma pandemia. “Todo mundo especulava que a grande pandemia seria uma mutação do vírus da gripe, com a de 1918 como referência”, reflete Antoni Trilla, chefe do Serviço de Medicina Preventiva do Hospital Clínic de Barcelona.

Outros coronavírus já haviam aparecido, como os da sars e da mers, mas a covid-19 foi mais complexa. “Adquiriu a capacidade de transmissão por via aérea, através dos aerossóis, e há muitíssimos assintomáticos que são potencialmente infecciosos: cria pacientes invisíveis que estão circulando sem sabermos”, aponta Trilla.

Os dados de países que publicaram a diferença de mortalidade também dão pistas sobre sexo e idade das vítimas: a pandemia golpeou mais fortemente os idosos e foi mais letal para os homens que para as mulheres. A Espanha se destaca por ter o maior excesso de mortalidade entre as pessoas de 15 a 64 anos e por ser dos poucos onde houve semanas que registraram uma diferença superior a 140% entre os maiores de 85 anos. Ou seja, de cada 5 idosos que antes morriam neste período em anos anteriores, 12 faleceram neste ano. A diferença nessa faixa etária alcançou 80% na Itália, 30% nos EUA e 20% na Alemanha.

Os índices se explicam, em grande medida, pela intrusão descontrolada do vírus nos asilos espanhóis no primeiro semestre, como explicava a epidemiologista Marina Pollán, do CSIC (agência espanhola de pesquisa científica), ao EL PAÍS. “Os asilos foram lugares particularmente terríveis na Espanha porque houve grandes focos, muitos mortos e, às vezes, até dificuldades de acesso aos hospitais.”

2021 chega sobre os escombros de 2020 com a luz aparecendo ao fim do túnel. Mas ainda é incerto que a saída esteja próxima.

Mortes covid-19
notificadas
Mortes
por 100.000 habit.
Excesso de mortes
em relação às médias anteriores
Excesso de mortes
por 100.000 habit.
Data do excesso
Alemanha 32 267
39
26 115
31
22-nov
Argentina 43 018
95
Bolívia 9 135
78
Brasil 193 875
92
Bulgária 7 405
107
11 234
162
06-dez
Bélgica 19 361
167
16 533
143
06-dez
Bósnia e Herzegovina 4 024
123
Canadá 15 387
41
Chile 16 488
86
16 745
88
06-dez
Colômbia 42 620
84
Costa Rica 2 156
42
Croácia 3 795
92
314
8
01-nov
Equador 14 001
79
Eslováquia 1 983
36
606
11
18-out
Eslovênia 2 631
127
1 757
85
22-nov
Espanha 50 442
108
77 271
165
29-nov
Estados Unidos 338 561
102
382 834
116
15-nov
França 64 204
98
58 135
89
29-nov
Geórgia 2 443
61
Grécia 4 730
45
3 399
33
01-nov
Guatemala 4 781
27
Holanda 11 305
66
16 925
99
13-dez
Honduras 3 111
31
Hungria 9 292
96
4 788
50
22-nov
Iraque 12 800
32

Homenagem aos mortos pela covid-19 feita pela ONG Rio de Paz em agosto deste ano – Antonio Lacerda / EFE