Dois policiais militares foram presos preventivamente acusados de matar dois jovens em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, após uma abordagem policial. A prisão foi efetuada pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, depois que os suspeitos foram apresentados pela Corregedoria.

Em audiência de custódia, o juiz Rafael de Almeida Rezende transformou o flagrante em prisão preventiva, ressaltando que, apesar de as imagens mostrarem os jovens sendo algemados, “tal ocorrência não foi registrada em nenhuma delegacia, tampouco encaminhada a outro órgão, tendo os policiais deixado o plantão respectivo sem nada relatar a seus superiores”.

Embora, em depoimento, os policiais tenham negado a realização de disparos, a perícia encontrou o que parece ser sangue no solo do local dos fatos, bem como nos tapetes da viatura.

“Há fortes indícios de que os custodiados, com o objetivo de encobrir uma abordagem policial malsucedida, deram cabo da vida das vítimas de forma a ocultar suas condutas pretéritas, restando evidente que a prisão cautelar é necessária para a garantia da ordem pública”.

Policiais negam tiro

Nos depoimentos à DH, os policiais negaram ter atirado. Na versão apresentada, eles faziam a abordagem ao carro branco “em atitude suspeita tendo em vista o horário e o local em que o veículo estava estacionado”, quando a moto passou. A queda, segundo os depoimentos, teria acontecido por descontrole do próprio piloto, ferido no incidente. Ainda de acordo com as declarações, os rapazes seriam levados à delegacia para averiguação, mas foram liberados “uns 40 metros depois”, pois os agentes “concluíram que os indivíduos não tinham problema nem a motocicleta que usavam”. Eles admitiram que “não é usual a liberação de suspeitos antes de chegarem na delegacia ou em outro órgão”.

O jovem Edson Arguinez Júnior, de 20 anos, já tinha comprado um vale-roupa para se preparar para o Natal. Mas os planos do rapaz, que estava esperando o fim da pandemia para retomar os estudos no segundo ano do Ensino Médio e se preparar para uma formação em Contabilidade, foram interrompidos. Jordan Luiz Natividade pretendia se alistar em breve, ao completar 18 anos, e realizar o sonho da avó ao seguir a carreira militar. Os corpos dos dois foram encontrados em um Pesque e Pague no bairro do Babi, em Belford Roxo. Dois policiais foram presos preventivamente em conexão com o caso.

Família encontrou apenas o casaco no local da abordagem

Tio de Jordan, Ronan conta que o sobrinho tinha ido a um churrasco com amigos e não retornou. A busca começou de manhã, quando ele recebeu mensagens perguntando pelo rapaz. Ao ser informada sobre uma abordagem policial, a família se dirigiu ao local, onde encontrou apenas o casaco de Edson. Mas um detalhe não passou despercebido: a existência de câmeras de segurança. De posse das imagens, começou então uma peregrinação por delegacias, que terminou à tarde, com a marcação em uma postagem em redes sociais: dois corpos haviam sido encontrados em outro bairro. Ronan chegou à área antes mesmo da polícia, e reconheceu Jordan, nu, com três marcas de tiros.

— Era um moleque que só tinha tamanho, sem maldade. A vida dele era jogar futebol no Brizolão, com os amigos. Foi lá que nasceu a amizade com o Edson — relata.

Os vídeos apresentados à polícia mostram os dois sendo abordados por policiais militares em São Bernardo, também no município da Baixada Fluminense, na madrugada de sexta-feira para sábado (12). Eles seguiam de moto, quando aparece um clarão, semelhante ao de um disparo de arma de fogo. Os dois caem, sendo então revistados, algemados e conduzidos à viatura. A moto é levada do local por um PM.

A cuidadora de idosos Renata de Oliveira, mãe de Edson, estava trabalhando na tarde de sábado, na Zona Sul do Rio de Janeiro, quando recebeu um telefonema com a notícia de que o filho teria sido morto. Ela primeiro passou pela 54ª DP (Belford Roxo) em busca de informações, mas os corpos ainda não tinham sido encontrados. Foi quando conheceu a mãe de Jordan, Alexsandra Santana. Quando registrava a denúncia no 39º BPM, ela recebeu uma ligação confirmando o duplo homicídio.

— Eu quero saber o motivo. Por que fizeram essa covardia? — diz Renata.

Edson era o mais velho, e deixou três irmãos. Segundo a mãe, o rapaz tinha uma postura protetora com os mais novos, era alegre, justo e brincalhão. Jordan também era o primogênito, e deixa uma irmã de dez anos. Os dois serão enterrados amanhã.

— Meu filho não vai ser esquecido jamais. Vamos lutar por justiça — diz, e resume o momento de dor:

— Tiraram um pedaço da minha vida.

Segundo a assessoria de imprensa da Polícia Militar, assim que o comando da corporação tomou conhecimento dos fatos, “todas as medidas pertinentes foram adotadas de imediato”. Os dois policiais citados na ação foram identificados e ouvidos pela 3ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM).

“As armas dos militares, tanto as da corporação quanto as particulares, foram recolhidas e apresentadas à Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF). Os dois policiais estão presos preventivamente na Unidade Prisional da PMERJ”, diz, em nota.

Globo