Em novo alerta, o epidemiologista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) na Amazônia Jesem Orellana explicou os motivos da existência de uma segunda onda da covid-19 em Manaus e propôs um lockdown.

“Talvez o único caminho para frear a segunda onda em Manaus seja um lockdown rigoroso, de uns 14 dias, para que estado, município e a sociedade de modo mais amplo possam reavaliar os erros cometidos até então”, disse o cientista.

Para ele, a medida é essencial a fim de que sejam retomadas de forma segura as atividades não essenciais. “E o tão desejado e necessário retorno das aulas presenciais”, defendeu.

Caso contrário, ele teme o aumento de internações e mortes na capital. “O que é algo péssimo em termo de saúde pública. A gente está falando em epidemia e o fato de você interromper uma queda (casos) já é sinal de fracasso”, disse ele ao BNC Amazonas.

Segunda onda

No documento enviado à direção da Fiocruz, Orellana apresenta os dados pelos quais afirma que Manaus já vive a segunda onda da doença.

Como chegamos na segunda onda de covid-19 em Manaus? Questiona o epidemiologista para explicar o que aconteceu entre 12 de julho e 15 de setembro (66 dias).

Para isso, ele usa dados de mortalidade, de internações hospitalares, estimativas de incidência SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e com informações sobre taxa de positividade para diagnóstico de covid-19 pelo exame RT-PCR, em agosto.

“Em outras palavras, com base em amplo e consistente repertório epidemiológico”, explicou.

Mortalidade

Segundo ele, comparando os dados de mortalidade por covid-19 entre 02 e 22 de agosto com os dados de 12 de julho a 1º de agosto, observa-se aumento de 9,7% no número de mortos em Manaus.

Entre 2 e 22 de agosto deste ano, comparados ao mesmo período do ano passado, ele apontou o aumento de 455% no número de mortes somados os índices de IR (Insuficiência Respiratória), SRAG e covid-19.

“Já no período anterior (12 de julho a 1º de agosto), o excesso de mortes respiratórias foi de 300%, um número igualmente alto, mas menor do que os mais atuais (2 a 22 de agosto)”, comparou.

Os dados mostram pura e simplesmente a quantidade de mortos no período. “Então a ideia é mostrar que de um período para o outro aumenta tanto as mortes por covid-19 como excesso de mortes respiratórias que também inclui SRAG”, explicou.

Hospitalizações

Para confirmar seu prognóstico, o cientista tomou também como base os dados mais atuais da FVS-AM (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas) sobre o número médio diário de ocupações de leitos clínicos por covid-19.

No período de 17 a 31 de agosto aumentou significativamente (suspeita/confirmado), passando de 156,7 para 182,1 de 01 a 15 de setembro.

Ainda mais preocupante, segundo ele, foi o ocorrido com o número médio diário de ocupações de leitos de UTI por covid-19 (suspeita/confirmado) no período de 17 de agosto a 31 de agosto, o qual passou de 95,2 para 106,7, no período de 01 a 15 de setembro.

“Vítimas hospitalizadas, em geral, apresentam pior prognóstico de saúde e estão, portanto, sob maior risco de morte, sobretudo pacientes de UTI”, acrescentou.

Incidência por SRAG e taxa de positividade para covid-19

Segundo o cientista, enquanto a incidência (casos novos por 100 mil habitantes de acordo com a semana de início dos sintomas) de SRAG cai em boa parte das grandes metrópoles do Brasil, em Manaus, a partir do início de agosto, observa-se tendência fortemente sugestiva de aumento.

“Para finalizar, em junho a taxa de positividade para testes RT-PCR realizados no Amazonas foi de 18,4%, em julho, aumentou para 26,1% e, finalmente, em agosto, esse percentual quase dobrou em comparação a junho, com 32,1%, valor um pouco abaixo do observado no pico explosivo da mortalidade em Manaus, em abril, com 42,5%”, explicou.

Veja o gráfico:

Emergências sanitárias

O pesquisador defendeu a urgência de elevar o padrão de resposta a emergências sanitárias a um novo patamar, já que Manaus é uma das cidades mais castigadas pela epidemia no planeta.

“A capital já se encontra na segunda onda de covid-19, assim como a região de Madri na Espanha, também duramente castigada na primeira fase da epidemia.

“Não fomos escutados em agosto e o caldeirão da morte encheu novamente em Manaus. Afinal, nossa vocação está mais para contar mortos ou para salvar vidas?”, indagou.

Por fim, ele lembrou que seguimos sem vacina e medicação específica para covid-19. Por isso é fundamental medidas de distanciamento social e evitar a reabertura prematura de escolas e pontos de aglomeração (bares, academias, shoppings, restaurantes e locais públicos). Por Iram Alfaia, do BNC Amazonas em Brasília