Uma petição online começou a recolher assinaturas pedindo o cancelamento da contratação do goleiro Bruno Fernandes, 35 anos, ex-Flamengo, pelo time do Rio Branco. A contratação foi anunciada no último domingo (26) pela presidência do clube.

O abaixo-assinado eletrônico lançado nessa segunda (27) pelo movimento feminista do Acre tem mais de 570 assinaturas e pretende conseguir 750 assinantes. O movimento chegou a emitir uma nota de repúdio após o anúncio da contratação de Bruno.

Bruno Fernandes foi condenado pelo homicídio triplamente qualificado de Eliza Samudio e pelo sequestro e cárcere privado do filho Bruninho. Ele também havia sido condenado por ocultação de cadáver, mas esta pena foi extinta porque a Justiça entendeu que o crime prescreveu. As penas somadas chegaram a 20 anos e 9 meses de prisão.

Na petição online o grupo diz que a ação se trata de uma “afronta” à sociedade acreana e desrespeito às vítimas do machismo, da misoginia e do feminicídio. O movimento pede que a contratação seja “imediatamente” revista pelo clube.

“É uma afronta e um escárnio, sim, o Rio Branco tomar tal decisão em um estado que tem um dos mais altos índices de crimes de violência contra a mulher, segundo os dados do Monitor da Violência. Exigimos, que sua diretoria venha a público, diante da sociedade e de sua valorosa torcida, pedir desculpas pela afronta que fez”, disse na descrição.

OAB também se manifestou

Em nota, a Ordem dos Advogados do Brasil seccional Acre (OAB-AC) também repudiou a contratação de Bruno pelo Rio Branco. Além disso, afirmou que se trata de um desrespeito para com todas as mulheres acreanas, principalmente, aquelas que foram ou são vítimas de violência doméstica.

“Campeão nas estatísticas de violência de gênero, o Estado do Acre e as mulheres acreanas não merecem mais esse golpe! Um acinte à causa das mulheres e à violência que campeia o nosso estado. O sentimento é de impotência frente a essa contratação por um clube de futebol do Acre”, afirmou.

O conselho de classe disse ainda que ser contra a contratação de Bruno pelo time acreano não se trata de discutir direito à progressão da pena e à ressocialização de condenados por crimes.

“O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil já emitiu entendimento sedimentado em súmula acerca da entrada de homens acusados de violência doméstica nas fileiras da Ordem. Assim, é claro o posicionamento da OAB enquanto entidade representativa de classe, que repudia os discursos machistas ou que trazem o machismo de forma sub-reptícia, pois, no sistema OAB, se um advogado cometer um crime de violência doméstica correrá o risco de ter sua inscrição negada ou sua carteira cassada – por perda da dignidade profissional”, destacou.

Movimento nas redes sociais

O movimento feminista lançou a hashtag #nãoacontraçãodogoleirobruno nas redes sociais para que as mulheres compartilhem e peçam também a suspensão da contratação do goleiro.

Ao G1, uma das coordenadoras do movimento feminista e do Instituto Mulheres da Amazônia, Lidiane Cabral, explicou que não vai ser possível fazer nenhum ato presencial para não desobedecer as regras de isolamento social, porém, o grupo está em contato com os patrocinadores e a direção do time para saber um posicionamento.

Em entrevista ao ge nesta segunda, o presidente do Rio Branco, Valdemar Neto, usou versículos da Bíblia para rebater as críticas recebidas pela contratação de Bruno e afirmou que o goleiro merece uma segunda chance.

“A palavra de Deus no livro de Mateus, 18 (capítulo) – 20 (na verdade versículo 21 e 22) fala sobre perdão. Quando Pedro perguntou para Jesus quantas vezes ele tinha que perdoar seu irmão que errou. ‘Até sete vezes?’ ele (Pedro) pergunta e Jesus disse: ‘Não. 70 vezes 7’. Ou seja, palavra de Deus fala isso. O livro sagrado, que é o livro mais sábio que tem no mundo. Então, não vai ser eu, mero mortal, que vou contra a palavra de Deus e à justiça aqui na terra. O que o pessoal tem que ver, é parar com essa hipocrisia, parar com isso, porque todo mundo merece segunda chance e quem não errou, que jogue a primeira pedra”, defendeu.

Perda de patrocinador

Com a repercussão negativa, uma rede de supermercados da capital do Acre, que era o único patrocinador do clube na atual temporada, anunciou na tarde dessa segunda (27), a suspensão do patrocínio pela primeira vez após 14 anos de parceria.

Por meio de nota, a rede de supermercados reforçou a decisão de suspender o patrocínio e ressaltou que não tem qualquer interferência nas decisões que são tomadas pela diretoria do Estrelão.

A parceria entre Rio Branco-AC e a rede de supermercados era para o fornecimento de alimentação para jovens das categorias de base. Apesar do rompimento, o empresário Adem Araújo garantiu que a suspensão não será definitiva.

Confira nota da OAB na íntegra

A notícia da contratação do ex-goleiro Bruno pelo Rio Branco F.C. nos chegou na manhã desta segunda-feira, 27, através da imprensa, que relatou o anúncio feito pelo presidente do clube, Neto Alencar. O dirigente disse que esta é “a maior contratação do Rio Branco este ano e uma das maiores de sua história”. Campeão nas estatísticas de violência de gênero, o Estado do Acre e as mulheres acreanas não merecem mais esse golpe! Um acinte à causa das mulheres e à violência que campeia o nosso estado.

O sentimento é de impotência frente a essa contratação por um clube de futebol do Acre. Não se trata de discutir direito à progressão da pena e à ressocialização dos condenados por crimes. Por óbvio que todos têm esse direito, consubstanciado na Constituição Federal e na lei.

D’outro norte, é preciso observar que o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (CFOAB) já emitiu entendimento sedimentado em súmula acerca da entrada de homens acusados de violência doméstica nas fileiras da Ordem. Assim, é claro o posicionamento da OAB enquanto entidade representativa de classe, que repudia os discursos machistas ou que trazem o machismo de forma sub-reptícia, pois, no sistema OAB, se um advogado cometer um crime de violência doméstica correrá o risco de ter sua inscrição negada ou sua carteira cassada – por perda da dignidade profissional.

Cabe lembrar que Bruno ainda cumpre sua pena e ainda pesa sobre ele a acusação da ocultação do corpo de sua vítima, essa sim, impossibilitada de qualquer “segunda chance”. Trata-se de um feminicídio bárbaro, cometido com requintes de crueldade, por quem era ídolo. Não se pode admitir encarar com naturalidade vê-lo ser reinserido através do esporte que o consagrou, quando era ovacionado nos gramados do País.

É preciso observar com atenção os discursos de igualdade de gênero e não mostrar tolerância com situações deste jaez. A elevação de uma figura com passado tão nefasto à condição de ídolo exercerá, com toda certeza, influência negativa e perniciosa em nossas crianças e nos próprios homens, já que aqueles com viés agressor poderão se sentir encorajados e apoiados em seus atos violentos e ideias machistas. É um preço pesado demais a ser suportado.

Por isso, a contratação pode ser encarada como um desrespeito para com todas as mulheres acreanas, em especial aquelas que foram ou são vítimas de violência doméstica. Por Iryá Rodrigues, G1 Acre