O rio Croa e seus encantos são um convite ao paraíso no coração da floresta acreana – Foto: Marcos Vicentti

No rio Croa, todas essas possibilidades são reais para aqueles que se permitem vivenciar uma experiência única. Uma verdadeira conexão com o paraíso no coração da floresta acreana.

Suas águas escuras e calmas, o verde intenso da vegetação, imponentes árvores centenárias e fauna em abundância são características que fazem do Croa um local paradisíaco e que chama atenção de turistas do mundo inteiro atraídos por sua beleza fascinante. Observar o vai e vem de canoas, e acompanhar parte da rotina das 70 famílias que vivem na comunidade ribeirinha é um atrativo a parte. Uma sensação marcante, que ficará guardada para sempre na memória de quem teve o privilégio de contemplar essa maravilha natural.

Típica casa dos moradores que vivem às margens do rio Croa Foto: Marcos Vicentti

Localizado em Cruzeiro do Sul, segundo maior município do estado, o Croa é de fácil acesso. Seguindo pela BR 364, no sentido Rio Branco, são apenas 22 quilômetros de distância totalmente asfaltados. Cada visitante paga, em média, R$ 15 pelo passeio nas embarcações. Os guias são os próprios moradores da comunidade ribeirinha, um novo ofício que chegou para ficar e ainda complementa a renda mensal.

Não é qualquer pessoa que tem o privilégio de trabalhar em um lugar assim. Sorte a do seu João Saraiva de Mendonça. O homem de 65 anos de idade já perdeu as contas de quantas viagens fez subindo e descendo o rio com o barco cheio de turistas. No começo, ele achou estranho aquela movimentação e o interesse de tantas pessoas em conhecer o Croa. Morador do local há 45 anos, João do Boi, como é popularmente conhecido, entendeu que o paraíso em que vive era o motivo do alvoroço.

João Saraiva é guia turístico e um dos mais antigos moradores da comunidade ribeirinha – Foto: Marcos Vicentti

“A gente achou estranho aquele monte de gente vindo aqui. De repente, era turista de todo lugar do Brasil e de outros países vindo conhecer esse lugar. Isso foi muito bom porque ajudou a melhorar nossos ganhos e deu emprego para muitos moradores do Croa, que vivem dessa renda do barco”, explicou.

Questionado sobre o local onde mora, o ribeirinho nascido no Seringal Valparaíso, no alto rio Juruá, é enfático:”para mim, o melhor lugar que tem para morar é aqui. Um lugar tranquilo, calmo e fácil de conseguir alimento. Vou viver aqui até o meu último dia de vida.”

Do alto, a vegetação aquática se confunde com as árvores em terra firme. Um verdadeiro espetáculo da natureza em plena Amazônia brasileira – Foto: Pedro Devani

Fauna e flora exuberantes do Croa

É durante o verão amazônico, período em que as chuvas ficam mais escassas  na região, que um espetáculo natural invade o rio Croa, literalmente. Com o baixo nível e a correnteza fraca, uma planta aquática chamada pasta preenche longos trechos do manancial, formando uma espécie de tapete verde sobre as águas. O fenômeno é um dos atrativos do local e rendem registros fotográficos de encher os olhos.

Segundo os moradores, no auge do verão, as pastas chegam a se estender por alguns quilômetros. Para não prejudicar a navegação das embarcações, mutirões de limpeza são feitos local. A vegetação pode prejudicar o funcionamento dos motores. A retirada das pastas é feita de maneira consciente, sem danos ao meio ambiente.

No verão amazônico, as pastas escondem a lamina d’água e formam este exuberante tapete verde – Foto: Marcos Vicentti

Outra planta aquática que chama bastante atenção é a Vitória-Régia. O Croa é um dos poucos locais no Acre com incidência natural da Estrela das Águas, como também é conhecida. Mundialmente famosa, a planta faz parte do folclore brasileiro e do lendário indígena da Amazônia. Na fase adulta, seu tamanho pode alcançar até dois metros de diâmetro. Já a floração ocorre entre os meses de março a julho. Com várias tonalidades de cores, a flor da Vitória-Régia está entre as maiores das Américas.

Em terra firme, a selva amazônica mostra todo seu esplendor. Dona da maior biodiversidade do planeta, por aqui é possível encontrar diversos tipos de árvores nativas, como a majestosa samaúma e a histórica seringueira. O Croa é um grande produtor de chacrona. Suas folhas são utilizadas para o preparo do chá da Ayahuasca. A comunidade também é conhecida pela espiritualidade. O local possui centros religiosos do Santo Daime, doutrina criada no Acre, no início do século passado, pelo mestre Raimundo Irineu Serra.

Rio Croa é um dos poucos lugares no Acre com incidência natural de Vitória-Régia – Foto: Marcos Vicentti

A fauna do Croa é rica. Seus mais de três mil hectares de floresta são o lar de diversos animais selvagens. Cobras, pacas, tatus, poraquês (peixe-elétrico), arraias, gaviões, jaçanãs, entre outras espécies são encontradas com facilidade no local. A conservação da floresta e alimentos em abundância são fatores positivos para a permanência desses bichos em seu habitat natural.

Repara aqui o que o bicho tá fazendo no remanso, dona Chaguinha!

Em março de 2019, a aposentada Francisca da Silva Barros, mais conhecida como Chaguinha, vivenciou seus 15 minutos de fama. Um vídeo gravado no rio Croa viralizou na internet. Nas imagens, moradores registraram a água escura se movimentar de maneira atípica, formando uma onda e acompanhada de uma espuma branca.

Região é composta por árvores de grande porte que se destacam em meio a floresta – Foto: Wesley Moraes

Os moradores não chegaram a um consenso sobre o fenômeno. Cogitaram ser a presença de um bicho não identificado, de peixes, cobra e até mesmo um Cavalo-marinho encantado. Apesar de não ter aparecido no vídeo, o nome de dona Chaguinha foi citado pela amiga e vizinha Helena Siqueira.

Bastou apenas isso para ela virar mais um meme da rede mundial de computadores. O sucesso repentino assustou a ex-professora. “Em um dia de domingo, eu estava aqui na minha casa descansado e aí eu escutei gritar por mim: -Dona Chaguinha, repara aqui o que o bicho tá fazendo no remanso! Depois de mais ou menos uma semana, eu comecei a receber ligações. Meus filhos que moram em Rondônia entraram em contato comigo e perguntaram o que estava acontecendo comigo. Minhas amigas e outras pessoas que moram na cidade também me ligaram. Esse vídeo foi postado e eu nem sabia”, revelou.

Registro de uma jaçanã em busca de alimento na vegetação aquática do Croa – Foto: Marcos Vicentti

Perguntada sobre o que realmente tinha acontecido naquele dia nas profundezas do Croa, Chaguinha não exitou. “Até a agora a gente ainda não sabe. Não vimos cobra e nenhum outro animal. Só ouvimos mesmo o barulho, vimos o rebojo, a espuma e que aquilo andava de um canto para o outro. Ainda hoje eu ainda tenho medo”, confessa.

A história de Chaguinha com o Croa começou em 1982. Naquele ano, a recém formada pedagoga foi lecionar em uma escola rural da comunidade. Por 9 anos, ela exerceu uma das mais nobres profissionais e ensinou muitas crianças a ler e escrever. Transferida para a zona urbana de Cruzeiro do Sul, ficou na cidade até se aposentar.

Estranho fenômeno registrado nas águas do manancial, em março do ano passado – Foto: Reprodução

Vinte dois anos depois, ela decidiu retornar em definitivo. Comprou uma propriedade às margens do rio e construiu a casa onde vive com a filha e o genro, desde 2013. A mulher de 67 anos de idade tem orgulho de ser uma moradora do Croa, apesar de jamais ter tomado banho em suas águas turvas. Mas isso não tira o encanto que ela tem pelo lugar que escolheu viver até o seu último dia de vida.

“Eu sempre gostei daqui, sabe? O Croa é uma maravilha e morar aqui é uma bênção. Uma natureza bela e é muito saudável pra gente. Morei um tempo na cidade, mas eu gosto mesmo é daqui e é onde eu me sinto muito bem. Só vou sair daqui quando Deus quiser”, conta.

Dona Chaguinha e sua relação de amor com a comunidade do rio Croa – Foto: Marcos Vicentti

Os empreendedores do Croa

O casal Reginaldo Costa da Cunha e Damiana Cunha enxergou em uma deficiência a oportunidade para melhorar a renda da família. Com muitos turistas e poucos restaurantes, eles viam que muitas pessoas gostariam de permanecerem por mais tempo no local, mas a falta de estrutura acabava atrapalhando.

Foi então que Dedé, como é popularmente chamado, chamou a esposa para abrir um empreendimento no quintal da casa onde vivem. Nascia o Restaurante Sabor e Lenha. As mãos talentosas de dona Damiana e o atendimento espontâneo do marido formaram uma combinação perfeita.

Águas escuras do Croa formam um lindo espelho d’água – Foto: Wesley Moraes

“Fazemos tudo com muito amor e carinho. O tempero que uso para fazer a comida da minha família é o mesmo para os nossos clientes. Graças a Deus, temos recebido muitos elogios pela qualidade dos nossos pratos e esse reconhecimento do nosso trabalho é muito gratificante”, disse Damiana.

O local oferece vários pratos típicos da culinária regional acreana. Galinha caipira e tambaqui assado na brasa estão entre os pratos com sabor caseiro que fazem o maior sucesso entre os clientes. A demanda é tamanha que Dedé precisou deixar a função de guia turístico para se dedicar ao restaurante e, constantemente, precisa contratar mais pessoas para dar conta do movimento.

Damiana Cunha é a responsável pelas delícias regionais no restaurante que abriu às margens do rio Croa – Foto: Marcos Vicentti

“Além dos brasileiros, já recebemos pessoas da Rússia, da China, Estados Unidos, Japão, Dinamarca, México e do Peru. Eu acho muito bom esse movimento de turistas por aqui. Foi bom para todo mundo. Ajudou os catraieiros e a gente que tem esse restaurante. Sem contar que muitos produtos que usamos são comprados aqui mesmo na comunidade”, destacou.

Por conta da pandemia do novo coronavírus, o fluxo de turistas diminuiu. Com a reclassificação para a cor Laranja (situação de alerta), em Cruzeiro do Sul, o restaurante retomou suas atividades com os devidos cuidados de distanciamento físico e de higiene. Agendamentos e informações estão disponíveis pelos telefones (68) 99966-5122 e 99924-2783.

Dedé decidiu empreender e hoje é proprietário de um dos restaurantes mais disputados do Croa – Foto: Marcos Vicentti