Para garantir que as cinco filhas continuem estudando durante a pandemia do novo coronavírus, a indígena Edna Luiza Yawanawa, de 41 anos, transformou a varanda da casa, na cidade de Tarauacá, interior do Acre, em uma sala de aula. É com uma caixa de som que as meninas ouvem as lições e explicações dos professores transmitidas pela rádio.

Desde o último dia 22, a Secretaria de Esporte e Educação do Acre (SEE) passou a transmitir as aulas pela rádio e televisão para os alunos de regiões de difícil acesso.

As aulas presenciais estão suspensas no estado desde o dia 20 de março. Parte da carga horária foi adaptada para aulas on-line para garantir o ano letivo, mas os estudantes de áreas distantes enfrentavam dificuldades ter acesso ao material divulgado na internet.

Por isso, foi lançado o programa “Escola em Casa”, que permite a realização da carga horária escolar da rede pública à distância por meio de videoaulas e audioaulas que reforçam as aulas que já estavam ocorrendo on-line desde abril deste ano.

As filhas de Edna estavam estudando por videoconferência, mas pelo celular da mãe. A família usa a internet de um vizinho, que divide o Wi-fi. Professora de história, Edna disse que as transmissões pela rádio facilitaram mais ainda os estudos das filhas.

“Em dezembro, quando voltei da aldeia, meu vizinho passou a dividir a internet antes da pandemia. Graças a Deus, quando aconteceu já tinha internet dele, cada um se virou como pôde. As meninas tinham material impresso na escola.

Paixão pelo rádio

De manhã cedo, Edna faz o café, liga o aparelho de rádio, arruma a caixa de som na varanda e senta ao lado de Tamar Luiza, de 6 anos, Nêtê, de 8, e Saná, de 10, para acompanhar as aulas.

Ela faz questão de estar perto e ajudar as filhas nas lições e dúvidas. A varanda vira uma sala de aula na casa simples da família.

“É bem na hora do café delas. Ligo o rádio lá na parte de trás e fico esperando com elas. Não quis mexer mais com a TV e quero que se apaixonem pelo rádio também, assim como eu sou. Amo o rádio, é uma das melhores formas de comunicação, acredito mais na informação do rádio do que na da TV. Não sei porque, mas tenho esse sentimento”, relatou.

Pelo período da tarde, a indígena acompanha as filhas Wakayawa, de 12 anos, e Shanupanã 13 anos, nas lições. Ela diz que ouve de alguns pais relatarem dificuldades com a nova modalidade, mas para ela a mudança ajudou.

“Sei que está difícil para os pais, faço parte de alguns grupos e sei que têm reclamações com essa nova modalidade, mas não é uma coisa para se desesperar. A preocupação era que algumas crianças estavam em colônias e não podiam acompanhar, mas agora tem dessa forma”, frisou.

Edna era professora provisória, mas o contrato venceu e ela está desempregada. Com a quarentena, a família está vivendo de doações e ajuda de conhecidos. Mesmo com as dificuldades, a professora deixa os problemas de lado e faz questão de ajudar as filhas a manterem os estudos em dia.

“Eu reviso com elas, acompanho as lições, leio com elas. Acompanho tudo. Meu pai não sabia de nada, mas ganhei um legado dele. O primeiro presente que ele me deu foi um livro, ele queria que a gente estudasse, porque dizia que o nosso emprego era o nosso marido. Falava que a gente tinha que lutar pelo nosso lugar, por respeito, e não quero que minhas filhas passem por preconceitos. Podem ser pobres, mas sabem seus direitos e deveres. Ensino de tudo para minhas folhas”, concluiu. Do G1 Acre.