Com um registro de queda no preço praticado na venda da lata de castanha do Brasil desde o final de 2018, os produtores sentiram um impacto maior nas vendas neste ano, como consequência dos efeitos da pandemia do novo coronavírus.

Os valores variam, mas chegou a cair em até 70% entre 2019 e 2020, conforme informações da pesquisadora da Embrapa, a engenheira florestal Lúcia Wdat, que acompanha o ciclo da castanha no estado há 20 anos.

Em 2019, as vendas foram feitas em uma média de R$ 48 a lata. Já neste ano, em meados de janeiro, o preço praticado já era baixo e estava na média de R$ 25, porém, com o avanço da pandemia do novo coronavírus, teve produtor que chegou a vender a R$ 13 a lata de castanha.

Lúcia afirma que o que se vê é uma mudança ao longo dos anos e que a pandemia piorou o cenário. Ela afirma que em 2017 os produtores chegaram a vender o produto a R$ 200 a lata. Já no ano seguinte, em 2018, a estimativa de queda começou a dar sinais e apresentou os piores números em 2020.

“Em 2020, quando começou, ninguém não dava preço. Na safra deste ano, produziu muito e o mercado ainda não reaqueceu e a pandemia acabou de piorar tudo. Então o pessoal não estava indo tirar castanha porque o preço não estava bom e ficaram esperando para ver se melhorava, mas, com a pandemia piorou tudo”, conta.

A engenheira diz que quem tem transporte e consegue retirar a castanha ainda consegue preços melhores. Quem é associado também ainda pode vender por preços melhores, já aqueles que depende de atravessadores vendem com os piores preços.

“Na realidade é um conjunto de coisas; o preço já estava baixo, já havia problemas de estoque nas indústrias e armazéns e o pessoal não estava comprando muito, mas com a pandemia isso piorou”, disse a engenheira.

Vendas paradas

Além da pandemia, outro efeito ainda é consequência de 2017 quando a safra foi menor e os produtores conseguiram vender altos preços, o que fez com que os consumidores, que também estavam pagando um alto preço nos mercados, consumissem menos, informou Lúcia.

“Isso tudo começou a empacar o produto, os supermercados não venderam e foi sobrando produção. A safra de 2019 não foi muito boa, mas os supermercados e armazéns tinham estoque e o preço foi ruim”, acrescenta.

A engenheira informou que não tem números em relação a produção de castanha nas últimas safras no estado.

Associação paga menos

Essa queda nos preços também faz parte da estimativa da Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Acre (Cooperacre), que no ano passado pagou R$ 60 na lata de castanha e neste ano paga pouco mais de R$ 25.

O valor é 58% a menos no preço do produto praticado entre 2019 e 2020 e não é diferente da estimativa da Embrapa.

“É normal no mercado. Agora, o que eu falo, é que esse ano já vinha de queda, a gente não pode colocar a culpa só na Covid-19, mas intensificou um pouco mais por conta não só do preço, mas da dificuldade de vender isso no mercado também porque, devido ao decreto de fechamento comércio, tivemos muita dificuldade em vender”, disse o superintendente da Cooperacre, Manoel Monteiro.

O superintendente afirmou que a média de compra do produto caiu neste ano e teve que se concentrar apenas nos associados.

“No começo de 2018 começou a cair o consumo da castanha e a Cooperacre levou o maior prejuízo porque ela vinha dessa onda de preços altos e tinha pago preços muito altos na matéria-prima para os associados e fornecedores”, contou.

Em 2019, a tendência de queda continuou, mas em 2020 é que foram registrados os piores números. Conforme Monteiro, quanto mais difícil o acesso, mais barato o produtor tem que vender e alguns já chegaram a vender a R$ 12 a lata.

“Só que esse preço que a Coorperacre paga não é muito parâmetro quando você fala do ponto de vista geral do produtor. O que acontece: esse preço pra chegar no produtor, o transportador vai lá e paga um preço menor e teve produtor que chegou a vender por R$ 12 nos lugares mais distantes”, completa.

Por Alcinete Gadelha, G1 Acre