O adolescente Vinícius Afonso, de 17 anos, que a mãe denunciou que foi agredido por policiais do Grupo Especial de Fronteira (Gefron), passou por exames e precisou aumentar a dosagem das medicações que faz uso diariamente. O caso ocorreu na última sexta-feira (29) em Plácido de Castro, no interior do Acre.

A dona de casa Isabel Afonso gravou um vídeo para denunciar as agressões sofridas pelo filho. O caso tomou repercussão nas redes sociais e o Ministério Público do Acre chegou a instaurar um procedimento para apurar o caso.

A motivação para as agressões, segundo ela, foi porque o rapaz não estava usando máscara, como é obrigatório na cidade por conta da pandemia do novo coronavírus.

O rapaz, que que tem problemas neurológicos e psiquiátricos, de acordo com a mãe, ainda precisa passar por um neurologista e neurocirurgião para avaliar a situação.

Ele faz tratamento em São Paulo a cada seis meses, mas, por conta da pandemia, o médico que acompanha o caso, segundo a mãe, pediu que ele fosse avaliado pelos especialistas no Acre para que não precise viajar e corra risco de contaminação.

“Ele fez uma tomografia com contraste e um raio-X tudo com laudo, em Rio Branco. Falei com o prefeito e com o secretário aqui do município e estão dando assistência. Ele também precisou ir ao dentista, porque usa aparelho e, como a boca ficou toda espocada, o dentista passou outras medicações. Entrei em contato com o médico dele em São Paulo e ele falou que eu tinha que levar o Vinicius em um neurologista e em um neurocirurgião para avaliar, porque teve agressão também na cabeça. Mas ainda não foi porque eu não tenho encaminhamento, ainda estou tentando”, disse Isabel.

Apesar da situação, a dona de casa diz que o filho tem apresentado melhoras com relação aos espasmos, que estavam bem mais fortes por conta das agressões. O rapaz também voltou a conseguir dormir e está menos agitado.

“Ele está controlado, está só com hematomas, melhorou um pouco as dores no corpo que estavam bem fortes, já está dormindo bem também. Tem se agitado só quando fica nervoso mesmo. Eu não vou estar mentindo, eu só não concordo com tamanha agressão sem necessidade”, falou a dona de casa.

A mãe disse que ainda não abriu nenhum processo com relação ao caso e que está aguardando a promotoria do Ministério Público que está acompanhando a situação. Ela voltou a afirmar que aguarda por Justiça.

“Quero processar o estado, entrar com uma ação de danos morais. Pessoas iguais a esse rapaz [policial] e aos outros dois que estavam com ele não são capazes de exercer a função e vou deixar que a Justiça seja feita”, concluiu.

Vídeo da viatura parando em rua

Um vídeo gravado por câmeras de segurança mostra a viatura da polícia parando em uma rua onde fica por cerca de um minuto. As imagens não mostram com clareza a ação, mas é possível ver que o policial que estava dirigindo desce do carro e vai para o lado do passageiro da frente.

Outros dois policiais estão em pé na carroceria do veículo. Em seguida, um dos policiais que está na parte traseira do carro desce e vai para o lugar do motorista.

Apesar de as imagens não mostrarem bem ao certo o que acontece, a movimentação segue como o que foi relatado pelo adolescente sobre o dia das agressões.

Investigação do MP-AC

O promotor de Justiça José Lucivan Nery de Lima, que instaurou procedimento para apurar a denúncia, solicitou ainda que Conselho Tutelar acompanhe o caso, já que a vítima tem menos de 18 anos.

As investigações estão em andamento e que solicitou imagens de segurança dos locais por onde a viatura teria passado e também da delegacia para onde o adolescente foi levado. Ele aguarda ainda informações da apuração que está sendo feita internamente pela polícia.

“Assim que tomei conhecimento dos fatos, abri o procedimento e está na fase de investigação. Estamos colhendo informações, por último pedi até ao nosso Núcleo Técnico para colher imagens de segurança da cidade para saber se consigo alguma imagem da ação policial. Então, estou levantando todos os meios de investigação para formar meu convencimento sobre o que aconteceu, os crimes que foram praticados e também estou esperando concluir as investigações policiais”, disse o promotor.

O presidente da Comissão da Pessoa com Deficiência da Advogados do Brasil seccional Acre (OAB-AC), Andresson Bomfim, informou que a comissão acompanha o caso.

“Vamos acompanhar o desenrolar das coisas, porque a função de processar crimes é do Ministério Público. Nós da Comissão da Pessoa com Deficiência emitimos uma nota de repúdio, porque vimos a gravidade do que aconteceu e vamos acompanhar. Na próxima semana, vamos pedir o andamento do inquérito e, se tiver concluído, vamos pegar uma cópia”, disse Bomfim.

Relato das agressões

Também em vídeo, o adolescente contou como foi a abordagem. Ele disse que os policiais chegaram perguntando onde estava a máscara dele e a da jovem que estava com ele. Em seguida, os militares perguntaram a idade dele e, como é menor, contou que ficou com medo de levarem a moto da mãe e acabou dizendo que não lembrava da idade.

Nesse momento, ele relatou que um dos policiais deu um murro que acertou seu marcapasso e depois levou um ‘mata-leão’. Ao tentar se defender, acabou batendo no rosto do policial. Foi quando foi algemado e colocado dentro da viatura, onde teria levado vários murros.

“Eu estava algemado e o que eu acertei fisicamente estava dirigindo. Aí, ele desceu do carro e deu vários murros na minha cara, várias sequências de murros. Acho que mais de dez murros e disse que era para eu aprender. Quando me levou para a cela, outro [policial] disse: ‘deixa só tua mãe sair que tu vai aprender a bater em cara de policial’. Isso foi tipo uma ameaça para mim, já fiquei com medo”, relatou o jovem.

Segurança abriu procedimento

Após as denúncias, em nota, a assessoria da Secretaria de Segurança do Acre informou que já tinha conhecimento do caso e que foi aberto um procedimento tanto na Polícia Civil quanto na Militar para apurar a ação dos policiais do Gefron envolvidos na abordagem.

Ao G1, nesta quarta-feira (4), a Segurança informou que o material colhido no procedimento interno está concluído e que o secretário deve se reunir com o Ministério Público para repassar as informações.

Inicialmente, a secretaria chegou a informar que foi determinado o deslocamento de um oficial do Gefron até o município de Plácido de Castro e que a guarnição do Gefron que estava atuando foi removida da cidade.

Do G1 Acre