Atualmente, o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking da Johns Hopkins em relação ao número de infectados – Foto: Wikicommons/Reprodução

O tempo – Há 102 anos, o Brasil fora devastado pela gripe espanhola, que, em um ano, matou cerca de 30 mil pessoas no país e transformou grande parte das metrópoles brasileiras em um “grande hospital” a céu aberto. 

Nesta semana, a pandemia do coronavírus ultrapassou o número de fatalidades causadas pela peste do século passado. Há mais de 32 mil óbitos causados pela Covid-19 no Brasil. Com isso, em termos absolutos, a pandemia do novo coronavírus é a mais mortal em toda história brasileira. 

Na época, a “influenza hespanhola”, como era chamada a doença, ceifou mais de 50 milhões de vidas em todo o mundo, quando a população global não chegava a 2 bilhões de pessoas. No Brasil, havia pouco mais de 28 milhões de habitantes. 

Segundo informações do balanço contínuo da universidade norte-americana Johns Hopkins, o coronavírus atinge, nesta quinta-feira, cerca de 6,5 milhões de pessoas e matou 386 mil infectados desde o primeiro caso registrado da doença, no final de 2019.

A primeira infecção por coronavírus registrada no Brasil ocorreu em 26 de fevereiro deste ano. Pouco mais de três meses depois, o número de mortes causadas pela doença chegou a 32.548, segundo o último informe do Ministério da Saúde, divulgado às 22h dessa quarta (3).

Atualmente, a população mundial estimada é de 7,7 bilhões de pessoas e, no Brasil, segundo o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), há 209,5 milhões de habitantes. 

Apesar de, em termos absolutos, os óbitos da Covid-19 terem ultrapassado os da gripe espanhola, é importante ressaltar a diferença no tamanho da população brasileira, que era quase dez vezes menor em 1918. 

Contudo, os números da maior pandemia do século XX foram registrados durante um período maior, e o pico de infecções e mortes no Brasil ainda não foi atingido, sendo previsto para o início de julho.

“Coronavírus está em outras proporções”

Membro do comitê de combate ao coronavírus em Belo Horizonte, o médico epidemiologista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Unaí Tupinambás afirma que, apesar de ser difícil traçar paralelos entre as duas pandemias, o coronavírus é a maior preocupação de saúde pública no Brasil nas últimas décadas. 

“Podemos chegar a uma tragédia sanitária nunca antes vista na história brasileira. Se continuarmos com a posição errática do governo federal, poderemos chegar à humilhante posição do país com o maior número de mortes no mundo”, afirma.

Atualmente, o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking da Johns Hopkins em relação ao número de infectados, com mais 584 mil doentes, atrás apenas dos Estados Unidos, que registram mais de 1,8 milhão de casos da doença.

Levando em consideração o número de mortes causadas pela Covid-19, o Brasil é quarto mais atingido do mundo, atrás dos norte-americanos, do Reino Unido e da Itália. 

Tupinambás, que viveu de perto as pandemias do HIV, do Zica, da Dengue, da Febre Amarela e da H1N1, dentre outras, diz que a situação da Covid-19 no país está “em outras proporções”.

“A capacidade de disseminação do vírus é extremamente rápida, não nos aproximamos de uma tragédia, vivemos uma tragédia. Estão morrendo mais de 1.200 pessoas por dia no Brasil. Nenhuma doença matou tanto por dia no mundo, nunca”, ressalta o epidemiologista. 

“O mal alastra-se. Trata-se de uma simples gripe?”

“No começo, o carioca ainda brincou, mas, quando se descobriu que o número de mortes estava chegando a centenas por dia, viu-se que não havia motivo para rir”, escreveu o jornalista e escritor Ruy Fausto, em sua reconstituição do cenário gerado pela gripe espanhola na capital fluminense no século passado, no livro “O Carnaval da Guerra e da Gripe”. 

Os escritos de Fausto não ocorrem em vão. Estampado em uma das páginas do “Jornal do Brasil” em 1918, havia a questão: “O mal alastra-se. Trata-se de uma simples gripe?”. No artigo, questionava-se, como ocorre ainda no Brasil com o coronavírus, o real perigo da influenza espanhola. 

Na época da publicação, havia poucos casos da doença no país. Meses depois, e com acúmulo notório de mortes causadas pela gripe espanhola, o tom do debate público mudou. Em manchete do extinto jornal carioca “Gazeta de Notícias”, em pleno pico da pandemia, a folha anunciara: “O Rio é um Vasto Hospital!”.

Primeiro minimizada pelo governo e pela população em 1918, a gripe espanhola foi considerada, posteriormente, como “o maior holocausto médico” da história brasileira por especialistas em saúde da época.

Negação também ocorreu em 1918

Doutora em história, Anny Torres estudou a fundo a pandemia da gripe espanhola de 1918. Ela explica que, apesar de serem contextos sociais e históricos diferentes, é possível traçar paralelos entre a experiência que ocorreu no século XX com o que vive-se hoje, com o coronavírus. 

“Para quem estuda história de epidemias, há uma certa psicologia social que emerge lidar com esse tipo de evento. Uma das questões muito fortes na gripe de 18, que também existe hoje, foi negar o problema. ‘É uma gripezinha’, não precisa de preocupar. Havia isso em 18 também”, conta. 

Outro ponto de encontro entre as duas pandemias, afirma Anny, é a busca de um culpado externo para o problema. Com a gripe espanhola, chegou-se a afirmar que a doença seria fruto de uma arma biológica criada pela Alemanha, por exemplo. Contudo, a negação, principalmente pelas autoridades, é o que mais une os dos períodos, ressalta Anny. 

“Reconhecer a pandemia vai impor tomadas de decisões que trazem impactos para a popularidade, para a administração. Reconhecer o problema é ter que lidar com ele. A mesma coisa ocorreu em 18, também com o cólera no século XIX”, pontua. 

O terceiro paralelo encontrado pela historiadora é a mobilização social que ocorre durante a pandemia. Com a incapacidade do Estado em dar uma resposta ao problema, a população se une para tentar lidar com a doença. “Tem-se, também, isso no século XIX e no XX. Foi essa mobilização que ajuda a superar o problema”, afirma. 

Imagens

As imagens que foram registradas durante a pandemia em 1918 são crônicas parecidas com as que assistimos em 2020, analisa Anny. “Os pobres também precisavam trabalhar em 18, a doença avançou nessas populações. São elementos que conseguimos identificar nas duas experiências”, ressalta.  

A vulnerabilidade da população mais pobre, que é observada durante a pandemia do coronavírus, também foi registrada em 1918. “A doença atinge mais que tem menos condição de fazer frente a ela. A ideia da democracia da doença, de que todo mundo, pega, é falsa. Todo mundo pega, mas nem todo mundo tem as mesmas condições de se cuidar”, conclui