Além da dor e tristeza de perder um parente para a Covid-19, familiares de duas vítimas reclamaram que encontraram os corpos dos parentes em uma área sem refrigeração, ao lado do depósitos de lixo da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do 2º Distrito de Rio Branco.

Um dos corpos era do idoso Raimundo Barreto de Souza, de 73 anos que morreu no início da terça-feira (19) na UPA à espera de um leito na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A família formalizou a denúncia no Ministério Público do Acre (MP-AC).

O flagrante foi feito na manhã desta quarta-feira (20), quando os parentes foram buscar os corpos para o sepultamento. Fotos que viralizaram nas redes sociais mostram dois cadáveres na parte externa, no sol e na parte de trás da unidade de saúde, o que contraria orientação do Ministério da Saúde que recomenda “na chegada ao necrotério, alocar o corpo em compartimento refrigerado e sinalizado”.

Souza foi internado pela primeira vez no último dia 12, mas foi liberado após alguns dias. Uma equipe da Rede Amazônica Acre chegou a encontrar com ele na saída da UPA do 2º Distrito e ele estava muito emocionado com a liberação.

Porém, após alguns dias depois da alta médica, o idoso passou mal e foi internado novamente na UPA e acabou morrendo na terça.

Na manhã desta quarta (20), parentes foram até a unidade de saúde com a funerária buscar o cadáver do aposentado, mas acharam o corpo dele e de outra vítima na parte externa do hospital.

“Não tinha ninguém lá para a gente questionar. Tinham umas moças fumando perto do lixo. Tem dois depósitos de lixo hospitalar e ao lado um depósito com grade é onde ficam os corpos. Não sei para o que usavam antes, mas agora é para colocar os corpos sem refrigeração nem nada, somente exposto no sol quente mesmo”, criticou uma parente do idoso, que pediu para não ter o nome divulgado.

O aposentado foi um dos seis mortos pela doença na terça-feira (19). Já nesta quarta, o total de mortos pelas doença subiu de 73 para 76. O número de infectados pelo novo coronavírus chegou a 2.817, conforme o boletim parcial da Secretaria de Saúde do Acre (Sesacre).

Saúde diz que corpos estavam em local adequado

À Rede Amazônica Acre, a gerente da UPA do 2º Distrito, Dora Vitorino, negou que os corpos estivessem ao lado de depósitos de lixo. Segundo ela, o lixo hospitalar é armazenado dentro de salas lacradas e em recipientes de plásticos vedados. O local onde os corpos estavam fica ao lado de uma passagem de saída dos funcionários e no final do estacionamento.

“Foi feita uma reforma nesse local logo no início da pandemia. Foi um dos primeiros trabalhos, foi colocada luz, pintado. Tem uma tela na frente, não é um local abafado, é ventilado. Não temos pedra, onde são colocados os corpos, essas são macas de ferro, que não tem ferrugem, são novas e que depois que são retirados os corpos são lavadas com sabão e água sanitária e colocadas no sol, como é indicado pela Vigilância. Isso aí não é um depósito, os corpos não ficam jogados de forma nenhuma”, explicou.

Como gerente da unidade de saúde, Dora destacou que nunca permitiria que os corpos dos pacientes jogados em depósitos e ao lado de lixos e entulhos. Ela esclareceu também que, para uma UPA, o local onde os corpos estavam é o ideal para a unidade.

“Não há necessidade de ter essas câmaras frias, como tem em Manaus, porque não temos essa quantidade de mortos em uma UPA, graças a Deus. Um deles morreu na madrugada e outro de manhã cedinho. Então, as funerárias não funcionam durante à noite, só pela manhã. Os corpos não demoram lá, no máximo que ficam é uma hora e meia. Não temos uma quantidade de mortos para ter uma freezer”, concluiu.

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MP pede explicações à Sesacre

Por nota, o Ministério Público do Acre (MP-AC) disse que a Promotoria Especializada de Defesa da Saúde recebeu a denúncia e solicitou explicações à Sesacre.

“Acho que nem na clínica veterinária os animais são tão maltratados. Estava pegando sol quando a gente chegou, acredito que a tarde deve pegar mais sol ainda. Chegamos lá por volta das nove da manhã. Não tinha ninguém para dar uma explicação, o pessoal da limpeza que estava lá disse que é assim com todos”, lamentou. Por Aline Nascimento, G1 Acre