Em meio aos ataques à imprensa e teorias da conspiração sobre a pandemia do coronavírus, Jair Bolsonaro publicou um tuíte na última sexta-feira (17) determinando a revogação de três portarias do Comando Logístico (Colog) do Exército – números 46, 60 e 61, de março de 2020 – que determinavam um maior controle sobre rastreamento, importação e identificação de armas de fogo.

Bolsonaro teria ficado irritado com as portarias. Um detalhe, no entanto, foi revelado pela jornalista Patrik Camporez, no jornal O Estado de S.Paulo neste sábado (17).

A repórter teve acesso a documentos que revelam que as portarias implementadas pelo Exército foram elaboradas a partir de uma recomendação do Ministério Público Federal (MPF), de junho de 2018, por causa da investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Segundo a reportagem, na ocasião, o MPF identificou falhas no sistema de distribuição de munições, armas e explosivos, após investigar a origem dos projéteis usados para matar a vereadora e seu motorista, Anderson Gomes, em março daquele ano.

As três portarias, revogadas por Jair Bolsonaro, tinham como objetivo dificultar o acesso do crime organizado a munições e armamentos extraviados das forças policiais do País. Os principais beneficiados desse tipo de extravio são as milícias do Rio de Janeiro.

Exército

Em julho de 2018, o Comando Logístico do Exército (COLOG), por recomendação do MPF, criou um Comitê Técnico para discutir melhorias no sistema. O setor bancário também pressionou o Exército, por melhorias no controle de explosivos, com o objetivo de frear o número de ataques a agências e carros-forte. As portarias ficaram prontas no mês passado, após um ano e dez meses de trabalho do grupo.

Todo o trabalho, no entanto, foi por água abaixo após o tuíte do presidente.

“Determinei a revogação das Portarias COLOG Nº 46, 60 e 61, de março de 2020, que tratam do rastreamento, identificação e marcação de armas, munições e demais produtos controlados por não se adequarem às minhas diretrizes definidas em decretos”, tuitou Bolsonaro, após se irritar com o Exército, considerando que suas ordens foram desobedecidas, segundo portal ligado às Forças Armadas.

A medida foi feita em conluio com o filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que atua como lobista para empresas estrangeiras de armamentos e publicou tuíte dois minutos depois do pai.

“Atiradores e CACs sempre apoiaram Bolsonaro para que tenhamos pela 1ª vez um Presidente não desarmamentista, é inadmissível que COLOG faça portarias restringindo a importação. A quem isso interessa? Certamente não ao Presidente, que determinou a revogação destas portarias”, tuitou Eduardo, prometendo “mais medidas”.

Por Plinio Teodoro / revistaforum.com