Ao passar pelo saguão principal do Pronto-Socorro de Rio Branco, cinco andares separam o térreo das duas primeiras pessoas contaminadas com o coronavírus no Acre a necessitar de aparelhos de suporte à vida, duas mulheres internadas na UTI Covid-19, como é chamado o local pelos médicos.

No maior hospital de urgência e emergência da Amazônia Ocidental, o objetivo é entrevistar duas médicas intensivistas – Íris Ferraz, que já havia deixado o serviço da sexta-feira à noite para a manhã de sábado, e Elizabete Souza, sua sucessora no segundo plantão – que vão trabalhar com pacientes graves de Covid-19 na rede pública, desde que a pandemia atingiu o estado. 

Lá em cima, o pavimento está completamente isolado. Nenhum servidor que não seja uma zeladora, auxiliar de serviços gerais, de touca na cabeça, máscara no nariz, luvas, higienizando a sala principal dos leitos. A oito metros da porta do elevador, uma antessala que dá acesso à principal da UTI o alerta: “Atenção, acesso restrito”. Dali em diante, só os profissionais vestidos apropriadamente com equipamentos de proteção podem entrar.

O silêncio é geral e só não completo por causa do ar-condicionado que remete a um pensamento incômodo, daqueles em que se projetam na mente cenas de pessoas de macacão e viseiras entubando outras pessoas, passando apressadamente, levando-as agonizando em maca para dentro de salas de isolamento, como a que está na nossa frente.

O telefone vibra no bolso e a pergunta que vem da gerente de assistência, Mônica Nascimento, é a de onde estamos. E a ordem vem automaticamente: tenham muita cautela com os cuidados básicos”, dispara ela.

O apelo soou na minha cabeça como uma marretada. Bem, estamos de máscara, eu e o fotógrafo, e botão do elevador foi pressionado com o cotovelo direito. Tudo bem que olhos começaram a coçar, mas é tudo psicológico.

A preocupação da gerente tem uma razão, e não é paranoica como a minha: a de que todo vírus é invisível a olho nu e este, em particular, circula e contamina muito facilmente, sobretudo em ambientes fechados. Não é o caso do hospital, mas vale a máxima de que ‘o cauteloso morreu de velho’.

A nova fase no enfrentamento ao coronavírus, com o funcionamento dos leitos de UTIs do Pronto-Socorro, começou na noite da última sexta-feira, 27, quando uma mulher, uma advogada de 37 anos incluída entre os três primeiros casos de contágio por coronavírus no estado, teve de ser transferida pela Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) de uma unidade de pronto atendimento particular para o PS.

O time, composto de enfermeiros, fisioterapeutas, médicos intensivistas e outros servidores de apoio, entrou em serviço pela primeira vez às 19h30 da sexta-feira, com o aparato especial de remoção da paciente. No sábado, uma aposentada de 77 anos também vindo da mesma unidade privada, foi internada.

A advogada já não mais precisa do equipamento de ventilação mecânica para respirar. “Ela respira espontaneamente. Seu estado de saúde é estável. Está progredindo para um quadro mais favorável e a estaremos monitorando até a sua alta”, explica a médica Elizabete Souza, especialista de UTI.

Força-tarefa inclui fisioterapeutas, enfermeiros e médicos intensivistas

Conforme a médica Íris de Lima Ferraz, coordenadora-técnica das UTIs do Pronto-Socorro, incluindo a UTI Covid-19, no 5º andar, uma força-tarefa de multiprofissionais se revezará por tempo indeterminados até que a situação da pandemia termine completamente.

Esse trabalho começou ainda no dia 1º de fevereiro, quando a Sesacre preparou as primeiras duas enfermarias de isolamento para receber os eventuais pacientes contaminados.

“Aqui, teremos todos os dias um enfermeiro, um fisioterapeuta e um médico intensivista”, explica Íris Ferraz. São dez leitos, sendo dois de completo isolamento. Em abril, oito médicos também entrarão na escala em plantão de seis por 12 horas. 

Quando foi entregue pelo governador Gladson Cameli devidamente reformado, no dia 6 de agosto do ano passado, o Pronto-Socorro de Rio Branco passou a oferecer 119 leitos. No 5º andar são dez UTIs, sendo duas de isolamentos, que inicialmente poderiam servir a pacientes com queimaduras, por exemplo, estão agora disponíveis para pessoas com Covid-19 em estado grave.

As demais UTIs para casos de acidentes vascular cerebral, funcionam no 4º andar, que tem 31 leitos.

Acre terá inicialmente 30 UTIs somente para pacientes contaminados

O secretário de Saúde, Alysson Bestene, anunciou que já estão como certos 30 leitos de UTIs no estado para pacientes em estado grave de Covid-19. Eles fazem parte do pacote de contratação de pelo menos dois mil leitos de UTI, do Ministério da Saúde (MS), em todo o país. Uma ampliação nos números pode acontecer com o passar do tempo, se necessário.

“O Acre já tem dez no PS e estão sendo instalados outros dez no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia do Acre [Into]”, ressalta Bestene.

Outras dez serão enviadas pelo Ministério da Saúde para o estado. Uma unidade de terapia intensiva precisa apenas de equipamentos específicos para ser instalada, necessitando apenas do espaço físico de qualquer unidade de saúde para que seja montada.

A Sesacre já havia divulgado a liberação de R$ 1,2 milhão em recursos federais para o reforço do plano de contingência, no enfrentamento ao coronavírus. O recurso foi investido na compra de insumos, como os novos kits de teste, máscaras e outros itens de suportes às unidades de Saúde dos municípios acreanos.