A Secretaria de Estado de Saúde Acre (Sesacre) segue monitorando 241 estrangeiros que estão abrigados em duas escolas de Assis Brasil, na fronteira com o Peru, como parte de uma ação iniciada há quinze dias pelo Governo do Acre e pela prefeitura local, para conter um eventual foco de contaminação por coronavírus no grupo.

Eles estão em quarentena no interior das duas instituições de ensino do município, na divisa com a cidade peruana de Iñapari, a 310 quilômetros de Rio Branco.

Os imigrantes acreditam que sair do país é a melhor opção para se protegerem de uma eventual contaminação pelo novo coronavírus. No entanto, encontraram o Peru fechado para ingresso e prosseguimento de viagem pelo continente, justamente por causa da pandemia da qual acreditam que podem escapar.

O grupo de 74 mulheres, 110 homens e 57 crianças é composto por pessoas de cinco nacionalidades diferentes que chegaram ao Acre gradativamente há 15 dias. Todos moravam nos estados do Sul e do Sudeste, mas agora querem deixar o país.

Enquanto muitos faziam a viagem de volta aos seus países de origem, outros tentavam chegar à América do Norte, quando foram surpreendidos pelo fechamento da fronteira por autoridades peruanas, em razão da pandemia de coronavírus. 

Na quarta-feira, 25, técnicos da Vigilância Sanitária da Sesacre se deslocaram para a região, onde há duas semanas o Peru fechou o acesso para o seu território, numa tentativa de frear o aumento de casos de Covid-19 no país, que já ultrapassam os 480 confirmados, com nove mortes.

“Eles estão vindo do sul e do sudeste do país, num processo inverso ao que fizeram três ou quatro anos atrás, e o nosso trabalho aqui, neste momento, é o de orientar as autoridades locais sobre a higienização dos abrigos e também conscientizar as pessoas que estão abrigadas para o risco de contágio por coronavírus, se não adotarem medidas de prevenção”, informa Advagner Prado, chefe do Núcleo de Serviços da Vigilância Sanitária, órgão da Sesacre.

Por dois dias, na quarta-feira, 25 e na quinta, 26, os profissionais da Sesacre estiveram novamente reunidos com o prefeito Antônio Barbosa, o Zum, com representantes da Saúde do município e com integrantes do Grupo Especial de Segurança de Fronteira, o Gefron, da Polícia Militar do Estado do Acre, para traçarem estratégias que visam a resguardar a integridade, tanto dos migrantes, quanto da população local.

O Governo do Estado do Acre, por meio da Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos, fez a doação de 250 colchões e 100 cestas básicas que acabaram em dois dias.

O prefeito de Assis Brasil, Antonio Barbosa, afirma que o grupo consome em média 900 refeições por dia, impactando diretamente nas finanças do município.

“Queremos o apoio do governo federal o mais rápido possível, pois do contrário não sei o que será de nós, já que nosso município é pequeno e não temos condições, mesmo com o Governo do Estado nos ajudando”, apela Zum.

Zum afirma que os próprios abrigados estão ligando para parentes e amigos que estão em outros estados chamando-os para virem a Assis Brasil. “Eles ligam todos os dias para São Paulo, Santa Catarina e o Paraná, principalmente, chamando seus compatriotas para se juntarem ao grupo aqui, porque entendem que estão sendo bem tratados”, alerta o prefeito. A fronteira com a Bolívia também segue fechada.

Nível de conhecimento sobre a pandemia é muito baixo entre os abrigados

Para Advagner Prado, a ideia é que todos tenham o máximo de cautela com a higiene para evitar um foco de contaminação por coronavírus com proporções drásticas.

“É preciso mostrar para eles que devem cuidar da higienização da forma mais correta possível. É preciso evitar um foco de contaminação por Covid-19 aqui”, ressalta o profissional da Vigilância Sanitária.

Na escola municipal Edilsa Maria Batista, onde estão abrigadas 92 pessoas, 32 são homens e 34 mulheres, das quais nove estão grávidas. Pelo menos 26 abrigados são crianças.

O nível de conhecimento deles sobre a pandemia é baixíssimo. Morei Sangré é natural da Costa do Marfim, na África. Está há quatro anos no Brasil, onde morava em Florianópolis. Agora, quer alcançar a América do Norte. “O povo brasileiro me tratou muito bem. Fui acolhido com alegria, mas quero ir embora para a América, quero entrar nos Estados Unidos”.

Já o serralheiro haitiano Lucian Verstling diz estar com os primos, todos vindo de São Paulo, tentando alcançar o México. “Infelizmente, Peru fechou tudo. Mas vamos ficar por aqui. Não temos mais como voltar para São Paulo”.

Verstiling está abrigado na escola estadual Iris Célia Cabanellas Zanini, para onde foram levados 149 migrantes. Nesta escola, há 40 mulheres, das quais sete estão gestantes, além de 78 homens e 31 crianças.

Nesta semana, o Peru fez a detenção de 18 mil pessoas por violação de distanciamento social.

Ainda na quarta-feira, 25, duas aeronaves C-130 Hércules, da Força Aérea Brasileira, resgataram 66 brasileiros que estavam retidos em Cuzco, numa operação gerenciada pelo Palácio do Itamaraty, em Brasília.

Os aviões fizeram uma escala técnica em Porto Velho e sem desembarque de passageiros, e seguiu para São Paulo, ao final da tarde do mesmo dia.