A queda do avião da Boeing em Teerã e das respectivas explicações faz disparar o alerta de várias suspeitas. O “timing” é uma delas. (Foto: Mazyar Asadi)

Por Gustavo Conde é linguista Brasil 247 – Como reza um certo protocolo forense, a primeira pergunta que uma investigação deve fazer quando se morre alguém em circunstâncias ‘acidentais’ é: “quem ganha com essa morte?”.

No caso de um acidente aéreo, os pressupostos são diferentes, mas nem tanto. Poder-se-ia colocar a questão da seguinte maneira: “quem ganha com um peso deste tamanho nas costas do governo iraniano?”

Vamos lá.

1. O erro no sistema de defesa iraniano foi praticamente simultâneo aos ataques bem sucedidos dos mísseis iranianos às bases americanas;

2. O contra-ataque do Irã foi calculado – ao que tudo indica – para não deixar mortos (o que conflita com a suposta negligência/erro de Teerã);

3. O voo abatido em Teerã não parece ter sido aleatório: os passageiros eram em sua maioria ucranianos e canadenses. Os primeiros, em conflito permanente com a Russia. Os segundos, aliados de primeira ordem dos EUA. De todos os aviões que poderiam ser derrubados pelo “erro”, o alvo pareceu perturbadoramente preciso;

4. O vídeo do míssil atingindo o Boeing foi divulgado com muita rapidez;

5. O assassinato do general Soleimani caiu tão mal na opinião pública internacional, que o contra-ataque “pacifico” do Irã dificilmente, por si só, iria minimizar o terror produzido pelos americanos;

6. Relatos sobre a defesa anti-aérea do Irã, confirmam que houve “falha na comunicação” e que o soldado que disparou o míssil o fez por conta própria, violando o protocolo (sabemos o quão simples é promover uma “falha” na comunicação do inimigo);

7. A revelação das razões preliminares da queda do Boeing fez os holofotes da imprensa internacional darem um “cavalo-de-pau” e “esqueceram” o bombardeio das bases americanas, bem como a execução de Soleimani;

8. O episódio da derrubada do Boeing colocou o povo iraniano contra o próprio governo;

9. A calma de Trump no pronunciamento à nação americana no dia seguinte ao bombardeio soou verdadeiramente estranha – bem como seu surpreendente pacifismo de ocasião;

10. Os adiamentos seguidos de Trump em falar à nação na véspera também provocaram perplexidade;

11. Foi Donald Trump quem anunciou que a derrubada do Boeing havia sido feita por um míssil. O governo iraniano parecia não ter a menor ideia deste fato, o que é espetacularmente suspeito.

12. O avião derrubado é um Boeing 737, com histórico grave de acidentes por falhas estruturais;

13. A Boeing passa por uma crise inédita, tendo que controlar vazamentos comprometedores de funcionários atrelados ao projeto do 737;

14. As ações da Boeing caíram fortemente quando da queda do avião e, depois do “vídeo do míssil”, voltaram a subir;

15. A empresa americana Boeing é a terceira maior empresa bélica do mundo;

16. A narrativa do “erro do sistema de defesa iraniano” é muito forte e abala a fama de potência tecnológica do Irã;

17. Curiosamente, o aspecto mais estratégico do bombardeio iraniano contra as bases americanas foi comprovar que o sistema de defesa anti-mísseis Patriot dos americanos é falho, dado que serviu para levar pânico a Israel;

18. O bombardeio semiótico das imagens de flores e velas dedicadas aos mortos do voo 655 pelas agências internacionais já começou – e todas elas tem a legenda subliminar, sob o signo da dor: “essa tragédia foi causada pelo Irã”.

São perguntas a serem formuladas não apenas por uma perícia técnica acerca da tragédia, mas também pelo jornalismo investigativo internacional.

O governo iraniano parece ter sido pego de calças curtas com esta falha em seu sistema de defesa. Isso ficou claro nas declarações das autoridades daquele país e na respectiva decepção deles consigo próprios, percepção rara e consequência clara de surpresa.

As false flags são o dispositivo mais comum nas guerras, híbridas ou não. Hoje em dia, ficou muito fácil forjar situações, acidentes, contrarrespostas e reações falsamente calculadas.

A tecnologia mais letal nessas conflagrações não são as bombas de fragmentação, as armas químicas, os artefatos puramente explosivos ou mesmo a fissão nuclear. A tecnologia letal é a comunicação de guerra, esse protocolo tão bem conhecido dos brasileiros depois da chegada de Bolsonaro ao poder.

Os próprios ataques a bombas não são mais meros ataques a bombas: são ‘enunciados’, revestidos de direcionamento semiótico e recheados de significados.

Matar Soleimani foi uma frase com sujeito, verbo e objeto. Responder com os mísseis, idem. Trump e Irã apenas “conversavam”. A queda do avião, sim, é a peça do quebra-cabeça que, muito provavelmente, jamais poderá ser devidamente encaixada no lugar.

Resta claro que Donald Trump se aproveita da tragédia ocorrida em solo iraniano para dar sequência a sua perseguição ao Irã. Suas publicações em farsi no Twitter revelam uma intencionalidade muito clara com relação a isso.

É uma senhora guerra de comunicação em que a realidade factual dos acontecimentos é apenas um detalhe.