Saúde e educação são dois direitos garantidos por lei às crianças brasileiras. No Hospital da Criança de Rio Branco, meninos e meninas que estão internadas têm à disposição aulas para que não percam o ano letivo enquanto têm que se submeter a tratamentos médicos.

O projeto “Classe Hospitalar”, implantado há quase de 30 anos no estado, é realizado pela Secretaria de Educação do estado através da Divisão de Educação Especial. De acordo com a coordenadora, Clarice Oliveira, cerca de 450 crianças já foram atendidas este ano.

Este é o primeiro ano que a pedagoga Eliana Gomes de Oliveira trabalha na unidade hospitalar com crianças internadas. Ela explica que a intenção é garantir o incentivo pedagógico de maneira lúdica, o que contribui para minimizar o desconforto do tratamento.

A professora afirma que as aulas são ministradas diariamente de acordo com a condição de cada criança. No hospital, existe um local preparado para receber os alunos, mas, devido ao estado de algumas crianças, a professora acaba tento que ir até os leitos para dar as aulas de forma individual.

“A ideia é que ela não se distancie do conteúdo da escola. A gente observa se a criança tem condições e entramos com os conteúdos. Mas, se não tem condições, entramos com atividades mais lúdicas. Tem aquelas que a gente observa que têm alguma dificuldade e a gente dá um apoio pedagógico. Tem crianças que vão até a classe e outras que não, eu tenho que ir até a enfermaria para atendê-la”, diz a professora.

Maior sensibilidade

Sobre a diferença entre a classe hospitalar e a sala de aula convencional, a professora logo diz: ‘é preciso ter maior sensibilidade’.

“Vai além da sala de aula, a gente tem que ter esse tato. Em um dia, a criança faz as atividades e no outro dia, devido à medicação, ela já não está com a mesma disposição. Então, temos que ter esse jogo de cintura, essa sensibilidade de lidar com esse tipo de coisa. Às vezes, ela quer só conversar”, conta.

As aulas têm duração de cerca de 40 minutos e são ministradas de segunda a sexta para crianças do pré 1 até o 7º ano.

“Garantir que a criança continue desenvolvendo o lado intelectual e também o lado lúdico enquanto está internada é um trabalho extremamente grandioso. Já aconteceu de eu chegar na enfermaria e a criança estar deitada, triste, aí você mostra a atividade e ela se envolve de tal maneira que, quem chega ali e olha para aquela criança, não diz que ela está doente. Eu tenho aprendido muito com essa experiência”, afirma.

Saber lidar com a morte

Eliana fala ainda sobre o fato de algumas crianças acabarem não resistindo à doença e morrendo no hospital. Ela diz que teve que aprender a lidar com a situação e a focar na criança e não na doença para poder fazer o trabalho da melhor forma.

“Tem um lado que não sabia se eu ia conseguir trabalhar, porque você está ali e tem algumas crianças que, infelizmente, vêm a óbito. Às vezes, você fala: ‘está doente, não precisa’, mas não, a pessoa está viva, tem desejos, e precisa de estímulos. Já vi olhares lindos de crianças quando você conta uma história e, por minutos, ela esquece que está naquela condição de enfermidade”, relata.

Matheus Mendonça, de 12 anos, está internado no Hospital da Criança há mais de um mês e chegou a ficar 34 dias na UTI. Ele faz o 6º ano do ensino fundamental e é uma das crianças que recebe aulas na unidade hospitalar.

O pai de Matheus, Rafael Peron, de 32 anos, conta que o filho foi diagnosticado com uma malformação na cabeça que só foi descoberta depois que ele teve um surto. Eles moram na zona rural de Boca do Acre e, devido à gravidade do estado de saúde de Matheus, ele foi transferido para Rio Branco.

No hospital, o menino recebe, além da atenção dos médicos e enfermeiros, da professora Eliana que passa alguns minutos em seu leito levando vídeos e histórias. Por conta do problema, o menino acabou ficando sem conseguir falar direito.

“Sou grato a Deus pelo meu filho ter aguentado chegar até esse hospital e estar agora se recuperando. A gente morava na zona rural e na escola que ele estuda a mãe dele que é a professora. As professoras do hospital estão acompanhando ele, colocando ele para estudar. É muito importante esse trabalho, bom para a recuperação da mente dele, sem dúvida”, afirma o pai.

Para a dona de casa Maria Socorro Silva, de 32 anos, que acompanha o filho Francisco Paiva, de 12 anos, no hospital, a classe hospitalar é uma oportunidade do menino esquecer um pouco que está doente. Ela conta que ele foi internado com anemia e já está na unidade há mais de 20 dias.

“Eu achei muito bom ele ficar estudando esses dias para continuar treinando e não perder muito conteúdo da escola. Também é bom para ele mudar um pouco o foco do hospital e pensar em outras coisas”, diz Maria.

Brinquedoteca

No mesmo local onde funciona a classe dentro do Hospital da Criança, tem uma brinquedoteca onde as crianças têm acesso a jogos, livros e podem fazer outras atividades lúdicas.

A educadora física Eliã Jinkings, que trabalha no local, fala que as atividades acabam melhorando a qualidade de vida das crianças que estão internadas.

“A brinquedoteca é muito importante no hospital porque visa a diminuição do estresse das crianças no processo de internação. A criança sai do mundo em que vive, onde tem convívio com familiares e amigos e, de repente, entra em um hospital, onde vai passar por vários procedimentos. Hoje, temos evidências científicas de que não se trata mais somente através da medicação. O brincar é como uma terapia para aliviar a dor”, diz Eliã.

Muitos dos livros que estão à disposição das crianças no local chegaram por meio de doação e outros por meio da Secretaria de Educação. As funcionárias do local ressaltam ainda que é importante as pessoas doarem esse tipo de material para que as crianças possam ter acesso a diversos tipos de conteúdo. Do G1 Acre