Janaina está chocada: não esperava que Bolsonaro indicasse o filho, o Eduardo Bolsonaro, à embaixada dos Estados Unidos. A deputada acha ainda que uma ala bolsonarista está um tanto cega

Janaina Paschoal é uma das principais apoiadora de Bolsonaro, mas se diz estarrecida com a má condução de seus atos.

Ela questiona, por exemplo, a decisão do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli de suspender processos com dados compartilhados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras sem autorização judicial. “A inteligência do ministro é incontestável, mas infelizmente, a meu ver, está sendo usada para o mal.”

Diz que Bolsonaro, o pai, erra muitas vezes — no tom e nas redes sociais. “Quando ele faz bullying com um ministro em uma live em rede nacional, está, em certa medida, dando mau exemplo.”

Deputada mais votada da história do país, aos 45 anos, ela sabe que seu eleitor também votou em Bolsonaro. Mas acha que o presidente precisa ouvir algumas verdades. Só não diz ela mesma porque, em suas palavras, não tem intimidade para isso. Casada, mãe de dois meninos, ela se nega a falar sobre sua vida pessoal. “Não me pergunte nada sobre minha família que não vou responder. É por uma questão de segurança.”

Em seu gabinete, na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), há um quadro de São Jorge pendurado atrás de sua cadeira e uma bíblia sobre a mesa aberta no livro de Jó, capítulo 19, versículo 29: Melhor será, pois, que temais a espada da justiça, pois por meio dela vêm os castigos, a fim de que saibas quem é o Todo-Poderoso. “Se não fosse a fé, teria parado há muito tempo”, afirma.

São Jorge é também símbolo de seu time do coração: “Já fui uma vez ao Itaquerão [estádio do Corinthians]. Coisa mais linda. Na hora em que eu vi a organizada subindo, chorei, emocionada. Vai Corinthians. É nóis!”

Janaina ri ao constatar que não consegue relaxar nem no pilates. Mas afirma que dirige com música alta (Iron Maiden, Metallica, Plebe Rude e Legião Urbana têm que estar no repertório) e que, quando tem tempo, gosta de cozinhar arroz de pato ou escondidinho. “Aproveito todos os momentos”.

Universa: Você está muito empenhada no projeto de lei que incentiva a cesariana. É uma questão pessoal?
Janaina Paschoal:

É exclusivamente uma análise profissional. Levantei várias situações em que o bebê e/ou a mulher morreram durante, um pouco antes, ou logo após o parto. Quando você pergunta o que poderia ter sido feito, a resposta é a cesariana. Na atividade advocatícia, eu me envolvi com processos em que, se a cesariana tivesse sido feita, não teria acontecido a morte do bebê. Recebi também relatos de chorar de mulheres que perderam a separação entre a vagina e o ânus e tiveram que passar por seis cirurgias de reconstrução. Cheguei à conclusão de que nós temos quase uma epidemia desse problema no Brasil. O que eu quero é simples: que a parturiente possa eleger a via de parto. E a lei é muito clara. Se o médico perceber que a escolha dela está equivocada, pode não atender, mas ele tem a obrigação de explicar.

A senhora já foi rotulada de histérica, como outras mulheres na política. Isso te atinge?

No dia a dia, não. Já me acostumei. As ameaças são de natureza sexual, e cheguei a conversar com uma juíza sobre isso. É algo que me chama muito a atenção. Outra coisa interessante: para algumas pessoas, é inadmissível que você tenha uma carreira solo. Não vou desmerecer quem tenha vínculos familiares e méritos próprios. Acham que sempre tem que ter um homem para justificar ou um homem por trás para dizer o que você vai pensar, falar. Mas não me sinto fragilizada por isso, não.

É quase uma afronta uma mulher ter uma vida política, ou até profissional, sem ser filha de alguém, ou esposa, ou amante.

A mulher se conforma muito com o preconceito?

Às vezes, sim. Quando eu comecei a advogar e dar aula na faculdade, com 23 anos, achava natural que eu não me manifestasse. Porém, assim que comecei a entender que eu sabia o que eu estava falando, passei a não admitir cerceamento. Costumo dar muita palestra para mulheres advogadas e dizer o seguinte: “se vocês estão submissas, a culpa é de vocês”. As mulheres querem que abram o espaço para elas. Ninguém cede espaço para ninguém. Eles têm que ser conquistados. Muitas vezes por duras lutas. Quando decide ir pro front, tem que entender que vai arcar com o bônus e o ônus. E os ônus não são fáceis. É pancadaria, porrada, xingamento. Uma vez, me mandaram ficar quieta numa reunião. E eu falei: “escuta, não sou um vaso. Se fosse para ficar quieta, eu não viria”. Ninguém me manda calar a boca. As mulheres reclamam que só os homens têm voz, mas elas não brigam para terem vozes. Se conformam. E não é gritar, arrumar encrenca ou ofender. É estar preparada para exercer esse papel.

Eu acho que eu tenho muito fundamento e consistência, e aí eu tenho legitimidade para gritar quando é necessário.

Na política, podemos chegar a um meio termo em que nenhum dos lados é totalmente bom ou ruim?

Eu nunca vi o PSL como o salvador da Pátria. Agora, a desgraceira toda que o Brasil está enfrentando foi por culpa do PT. Acho que eles tinham um plano do mal para a América Latina. Eles são muito cegos, e infelizmente uma parte do bolsonarismo também se mostra muito cego. E acho que essa decisão do ministro Dias Toffoli é muito simbólica. Ele aproveitou uma situação propícia, de um pedido da defesa do Flávio Bolsonaro, para suspender todas as investigações do país. Com isso, ele conseguiu o apoio de todos os petistas e também calar o grupo dos bolsonaristas que vinha batendo nele, em apoio à Lava-Jato. A princípio, a decisão favorece o filho do presidente. A inteligência do ministro é incontestável, mas infelizmente, a meu ver, está sendo usada para o mal.

Como a senhora avalia o governo Bolsonaro até aqui?

Eu gosto da linha do presidente. Acho importante ele quebrar exageros que a gente tem no país, como a legislação ultrapassada sobre o Meio Ambiente. Quando o presidente faz suas críticas, ele tem razão. O problema é o tom que usa. Ele perde a paciência e escracha. Até as pessoas que concordariam com ele ficam chocadas. Tive a oportunidade de dizer para ele tomar cuidado na intensidade. Por exemplo: ele tinha que zoar a cabeça do ministro numa live? [No dia 18/7, Bolsonaro perguntou se o ministro da Infraestrutura Tarcísio Freitas, carioca, tinha parentes “pau-de-arara”, e quando o chefe da pasta respondeu que sim, Bolsonaro completou: “sua cabeça não nega”]. Ele tem que lembrar que ele é o chefe da nação, e exemplo para muitos jovens. Então, quando ele faz bullying com o ministro em rede nacional, está, em certa medida, dando mau exemplo.

É mau exemplo indicar o filho Eduardo Bolsonaro para a embaixada nos EUA?

Aí é completamente grave. É outra coisa. Não poderia de jeito nenhum. Não estou desmerecendo o Eduardo. Eu vejo que ele é um dos políticos com futuro mais promissor. Agora, o presidente da República não pode indicar o filho embaixador. Será que nenhum diplomata presta no país? E como isso é recebido no exterior? Na minha leitura, isso fere a lei de improbidade administrativa e é ilegal, mas colegas dizem que não. Ela exige impessoalidade nas decisões. Ao indicar uma pessoa, deve-se levar em consideração o perfil, as ideias, mas o fator pessoal não pode ser o determinante. E quando ele diz que vai indicar Eduardo para essa embaixada, ele coloca como centro dessa decisão o fato de o rapaz ser filho dele. Isso é um absurdo. A pessoa que está no poder não pode tudo. Eu passei anos dizendo isso para o PT e eles não ouviram.

Eu estou chocada que no início do governo o presidente esteja fazendo isso. Não é comparável com os desvios bilionários, mas não é certo. Eu achava que ele não cometeria erros como esse.

Qual a leitura a senhora faz sobre a série de diálogos entre procuradores e o juiz Sergio Moro, vazada pelo The Intercept Brasil?

Por enquanto, não vi nenhum elemento passível de anular os processos e as condenações, mas um esforço conjunto de combater o crime. O que mais me chama atenção são as palestras, e aí não estou falando só do procurador Deltan Dallagnol. Há muito tempo penso que estas tais palestras, de várias autoridades, precisam ser regulamentadas. Não é possível que o Ministro do Supremo, cujo salário é R$ 33 mil, vá dar uma palestra, por exemplo, para uma empresa que tem ações no Supremo, e ganhe R$ 50 mil por ela. É uma maneira indireta de estourar o teto. É complicado ter alguém que é procurador da República, com cargo público, e que de repente está ganhando mais com palestras decorrentes dessa atividade do que a própria atividade. Não é ilegal, mas acho que é importante olhar para isso.

Mas (os conselhos de Moro) não enfraquecem as denúncias?

Não. Eu li tudo. Não vi nada ali que dê a entender que ele está criando provas. Essa proximidade entre as partes, se eu falar para você que me agrada, estarei mentindo. Sou bastante conservadora nessas questões. Acredito que tenho que ter um distanciamento, mas eu também tenho uma visão péssima da intimidade de ministros com advogados, em jantares de homenagem, por exemplo. Para mim é promiscuidade. Agora, é meio que uma prática da nossa atualidade. Talvez isso tudo que está vindo à tona seja para que nós façamos uma reflexão.

Você quer ser prefeita de São Paulo ou presidente?

Da República? Não descarto. Mas não para agora. Para a prefeitura, nunca foi meu desejo. Ela amarra você, porque precisa do governador. Não para fins políticos, mas para a manutenção da sua cidade. Como é que você critica uma coisa muito grave que o governador fez? É difícil. Um prefeito responsável é muito mais um administrador do que um político. Não pode manifestar opinião. Para o atual momento do país, não sou útil na prefeitura. Sou útil aqui.

Quem são seus conselheiros hoje?

Meu conselheiro sempre foi meu pai, aquele com quem eu passava as madrugadas conversando. Nunca ouvi meu pai dizer: “você não pode isso porque é menina”. Sempre ouvi assim: “porque você é mulher, tem que estudar mais”. Minha irmã acha que é exagerado isso, porque acaba desafiando a mulher o tempo inteiro, mas, para mim, foi importante. Ele sofreu vários problemas de saúde, então a gente acaba, de certa forma, o poupando. Gosto de ouvir as pessoas, a minha mãe, meus irmãos. Mas acho que hoje a pessoa mais próxima, não digo de coisas de decisões de trabalho, mas decisões de vida, é o meu marido. A gente só evita política. Fonte: Luiza Souto (De Universa)