Aumenta a pressão para nossos grandes parceiros comerciais pararem de comprar produtos brasileiros com Amazônia sendo devastada

Ministro Ricardo Salles caminha com madeireiros de Rondônia que retiram madeira de terras indígenas – Foto Magda Oliveira

Enquanto vai enrolando os doadores Noruega e a Alemanha sobre a continuidade do Fundo Amazônia, colocando em risco a liberação do R$ 1,5 bilhão que resta para combater, nos próximos anos, as queimadas e o desmatamento na maior floresta tropical do mundo, essencial para o equilíbrio climático do planeta, o governo Bolsonaro vai se afundando cada vez mais no poço do descrédito junto aos maiores países do mundo, muitos dos quais nossos principais parceiros comerciais.

O último desatino de Bolsonaro nesta seara se deu há poucos dias, com a ida do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a Espigão d’Oeste, no conflituoso estado de Rondônia, para (pasmem) apoiar justamente as madeireiras locais que derrubam e roubam madeira à vontade de terras dos índios, considerados seculares guardiões da grande floresta que leva as chuvas para abastecer de água as densas populações do Centro-Sul do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, formadores de um contingente populacional de mais de 164 milhões de pessoas (ver AQUI).

Condenado por crime ambiental em São Paulo (ver AQUI), Ricardo Salles chegou à região duas semanas depois que os madeireiros queimaram um caminhão tanque a serviço do Ibama, que estava servindo para abastecer três helicópteros da operação desencadeada pelo órgão para combater roubo de madeira na terra indígena Zoró, uma das muitas que há décadas vêm sendo invadidas no estado considerado o terceiro maior devastador e um dos mais violentos da Amazônia.

Em meio ao clima do faroeste criado há décadas na Amazônia por fazendeiros e madeireiros, Ricardo Salles pousou em Espigão d’Oeste como o xerife defensor de apenas um lado da história e foi logo discursando em favor dos madeireiros, tratando-os “de pessoas de bem, que trabalham neste país e que estão aqui representadas por todos vocês”.

E arrematou, desafiando as leis ambientais: “O que acontece hoje no Brasil, infelizmente, é o resultado de anos e anos de uma politica pública da produção de leis, regras, de regulamentos que nem sempre guardam relação com o mundo real. O que estamos fazendo agora é justamente aproximar a parte legal do mundo real que acontece em todo país, de Norte a Sul”.

Com sua fala e seu gesto de apoiar um dos setores que mais contribuiu para a devastação da Amazônia nas últimas décadas, o ministro do Meio Ambiente rasgou num dia só, no interior de Rondônia, os compromissos que haviam sido assumidos há menos de um mês pelo seu presidente durante a reunião do grupo dos países do G-20, em Osaka, no Japão.

Ali, após ser advertido pelos maiores chefes mundiais para a necessidade do Brasil cumprir à risca o componente ambiental nos vários acordos internacionais dos quais faz parte, Bolsonaro jurou de pés juntos, se fazendo passar por anjinho, que iria lutar pela preservação da Amazônia e garantir a permanência do Brasil no Acordo de Paris sobre o clima global e no acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, nosso segundo maior parceiro comercial.

Mal retornou ao país, no entanto, Bolsonaro voltou a operar seu “trator” devastador por sobre a Terra Brasilis e ordenou a seu ministro a ir a Rondônia prestar solidariedade e apoio a madeireiras que há anos devastam a floresta e roubam madeiras em terras indígenas, em parques nacionais e estaduais, em projetos de assentamento e em outras unidades de conservação florestal não só daquele estado, mas dos outros oito da Amazônia Legal.

Mapa com imagens de satélite mostra grande desmatamento em Rondônia já em 2014 – Reprodução Inpe

Gravidade das ideias e das ações do governo

Sem perceber a gravidade das ações e ideias nefastas que seu governo impõe quase diariamente contra as nossas riquezas naturais e os interesses da população, como é o caso de apoiar agora até quem comete crimes contra a floresta e sua população tradicional, ambas protegidas pela Constituição, Bolsonaro não pensa nem na crise econômica atual e muito menos na fragilidade da economia brasileira, altamente dependente da venda de commodities agrícolas para ganhar dinheiro lá fora.

Uma fragilidade que basta seus principais parceiros comerciais deixarem de comprar produtos que implicam em mais devastação na Amazônia e em outras regiões para o Brasil ir de vez à bancarrota. Um risco, aliás, que já está na iminência de ocorrer depois que 602 cientistas (ver AQUI), além de parlamentares e outras instituições da sociedade civil da União Europeia, ampliaram a pressão para os 28 países do maior bloco econômico do mundo parar de comprar matérias-primas e produtos brasileiros caso a Amazônia continue sendo devastada, trazendo gravíssimo risco para o equilíbrio climático da Terra.

Uma catástrofe que, certamente, só tende a se ampliar com a continuidade do governo de Jair Bolsonaro, que desde que assumiu a presidência da República, só fala em ampliar o agronegócio e a mineração na Amazônia, contando, para isso, com a parceria dos Estados Unidos, segundo o que ele mesmo revelou após seu primeiro encontro com o boquirroto presidente Trump.

Com isso, o recém-eleito presidente brasileiro, cujo apoio popular já não passa dos frágeis 33% nos primeiros seis meses de governo, realiza o antigo sonho norte-americano de se apoderar de todas as grandes riquezas naturais do Brasil, que começa pela posse de suas gigantescas reservas de petróleo e gás natural do pré-sal, já iniciada no também entreguista governo de Michel Temer.

E segue com a “doação” das estatais que sobraram do governo Fernando Henrique e chega, finalmente, à entrega da própria Amazônia, considerada o maior tesouro do país, que apenas em água doce subterrânea existente ao longo da maior bacia hidrográfica mundial, segundo cálculo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), valeria hoje algo em torno de US$ 2 quatrilhões, equivalentes a 100 vezes o PIB de US$ 20,6 trilhões alcançados pelos norte-americanos em 2018 e a 1.127 vezes o PIB de US$ 1,78 trilhão conquistado pelo Brasil no mesmo ano (ver AQUI). São desatinos demais para um país só.