O Acre rural estava em festa: Era mais ou menos assim naquele 15 de junho de 1962

Quando o ex-presidente João Gulart, ao lado de Tancredo Neves, assinou a Lei 4.070, naquele 15 de junho de 1962, aqui viviam 160 mil pessoas. Dessas, 126 mil moravam no campo. Nas cidades, eram apenas 34 mil.

O Acre rural estava em festa, em quatro meses, teríamos um governador, eleito com pouco mais de 7.000 votos, 15 deputados estaduais e Cr$ 300.000.000,00 (trezentos milhões de cruzeiros) de auxílio da União todos os anos durante uma década.

Logo, iriam chegar ao novo Estado, o vigésimo segundo da Federação, Cr$ 5 bilhões nos próximos dez anos.

Receberíamos, ainda, uma ajuda para pagar as diferenças salariais dos Desembargadores e juízes até que o estado os incorporasse por lei própria após organizar sistema judicial.

As dotações orçamentárias da segunda metade de 1962 seriam transformadas em convênios e no exercício seguinte receberíamos o mesmo valor destinado ao ex-território no ano anterior.

Dos Cr$ 300.000.000,00 milhões de cruzeiros de ajuda extra que receberíamos durante dez anos, metade deles, ou seja, Cr$ 3 bilhões de Cruzeiros, deveriam ser aplicados, por lei, para fomentar a riqueza regional. Ou seja: o desenvolvimento.

Os motivos para festa eram grandes. A economia local receberia, em dez anos, nada menos que Cr$ 3 bilhões de Cruzeiros.

Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia e bens e serviços da União foram todos repassados ao neófito Estado do Acre naquele 15 de junho.

A data que hoje se comemora marca o início do primeiro investimento programado e efetivo da União focado no desenvolvimento do Acre.

Os Cr$ 3 bilhões de Cruzeiros que seriam usados para fomentar o desenvolvimento não representavam muito se comparados com a produção de borracha e castanha da época.

Somente em 1961, havíamos lucrado Cr$ 1,2 bilhões de Cruzeiros com a borracha e outros Cr$ 279 milhões com a castanha.

O montante seria, mais ou menos, o equivalente a dois anos de produção envolvendo nossos principais produtos, borracha e castanha.

No entanto, o valor era considerável levando-se em consideração o que chegava da União no tempo de Acre Território. Em 1961, nossas receitas anuais não passaram de Cr$ 40 milhões de Cruzeiros.

Em 1972, prazo do encerramento da promessa de auxílio da União, o Acre seria outro. 
Contaremos numa outra oportunidade o que aconteceu depois.

Para tanto, visitaremos o Anuário Estatístico de 1972 para conferir no que deu a promessa que consta na Lei. 4.070/62, que hoje comemora 57 anos de vigência.

Antes, façamos uma viagem romântica pelo Acre de chegada da referida Lei. Viva! O Acre é um Estado.

Estamos em 1962…

Quando o Acre formou-se Estado, tínhamos 16 Km de rodovias federais. Todos, no barro!

Na produção extrativista, um ano antes, em 1961, havíamos pesado 11 mil toneladas de borracha – respondendo por mais de 30% do peso total da produção nacional de látex daquele ano.

No ano da assinatura do ato de 1962 que nos elevou a Estado, produzimos uma tonelada de Timbó e três de Tucum em fibra. O Timbó era utilizado para a pesca – e o Tucum, 
usado na confecção de cestas pelos indígenas.

Dos 160 mil acreanos da época, 482 deles se diziam pescadores, quase todos, mariscando para comer. O que escapava do bucho dos meninos era vendido nas feiras.

Naquele tempo, exportávamos o que tínhamos – borracha e castanha – e importávamos o necessário, o básico. A nossa conversa era com o Pará e o Amazonas. Belém e além-mar!

O saldo da balança comercial estava favorável em 1962. Exportávamos o dobro do que importávamos.

O Amazonas já era o primo rico do Acre em 1962. O Amazonas nos emprestou a sua Constituição Estadual até que fizéssemos a nossa, que só apareceu em março de 1963.

Fomos um Estado sem uma Constituição Estadual por quase um ano. Éramos amazonenses por vocação legal.

Naquele mesmo ano em que viramos Estado, as balsas levaram 24 mil toneladas de produção para algum lugar deste mundo.

Naquele 1962, não tinha carne farta, mas o arroz e o feijão apareciam nas estatísticas. E tínhamos também ovos! Não eram muitos, mas também não faltavam nas frigideiras.

E se você quisesse tomar uma garapa – sem a frescura do gelo – em 1962 era o point. Tinhamos um pouco de cana-de-açúcar e vários engenhos. Não faltava rapadura também.

Em 1962, geladeira era luxo. Água gelada? Vez na vida! E televisão, um encanto!

No ano que fomos criados, das 1.648 embarcações que subiam e desciam os rios, 1.640 pegavam sol e chuva. Eram embarcações abertas, movidas à remo. Barcos à motor eram apenas oito em 1962.

E se você quisesse comer um jabuti naquele 1962 não precisaria andar escondendo o bicho, era só ir no mercado. Naquele tempo, não era proibido saboreá-lo. O bicho constava até nos relatórios de produção do Serviço de Estatística oficial.

E se o sujeito decidisse tomar uma cervejinha naquele 1962? Será que os criadores do Acre Estado tomaram uma cervejinha gelada para comemorar a Elevação?

Cerveja não sei, mas “águardente” tinha um bocado. Eram 11 alambiques. Era a cachaça local, da boa, puro Acre, que alegrava a rapaziada em 1962.

Açúcar refinado no cafezinho ? Tinha! Mas o bom mesmo era o açúcar gramixó, que era à vontade.

Naquela época, existiam oito bancos apenas. E o que circulava neles era mais privado do que público. Ladrões? Raríssimos. A Guarda Territorial jogava pesado. Os larápios da época vestiam ternos de linho branco, a moda naqueles anos.

Na época do Território chegava um dinheirinho, mas não era lá essas coisas. E, sem muito controle na chegada e na saída dos cruzeiros, sempre tinha um esperto de linho branco metendo a mão.

Nas ruas das cidades circulavam 44 veículos de passeio. Havia um hospital federal e 28 médicos atendendo em todo o Estado.

As movimentações na área da saúde envolviam doenças causadas pela ausência de saneamento básico. Assim como perdura até hoje, faltava água tratada e rede de esgoto.

Em 1962, a rede de distribuição de água não chegava a 15 km e a de esgoto não mais que 50.

A doença do Jeca Tatu, o amarelão, causada por um verme que entra pela pele e termina fixando-se na porção que compreende o intestino delgado, nutrindo-se de sangue do hospedeiro e causando anemia, era um problema.

Eram poucos os banheiros com fossas naquele 1962 que inaugurou o Acre. Saíam caros e a população era muito pobre para tê-los. O jeito era utilizar as privadas ou o matinho mesmo. Barrigas cheias de vermes eram comuns naquele 1962 do Acre Estado.