Membros do Conselho do MPF pedem investigação de Deltan Dallagnol por conversas com Moro

Site The Intercept Brasil divulgou mensagens entre procurador e ministro da Justiça; eles afirmam que foram alvos de ‘hackeamento’ ilegal e negam irregularidades

O procurador do Ministério Público Federal Deltan Dallagnol em palestra no Rio Foto: Lucas Tavares 30/06/2017 / Agência O Globo

Integrantes do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) pediram nesta segunda-feira que o órgão investigue as conversas entre o coordenador da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, e o ministro da Justiça, Sergio Moro, ex-responsável por julgar ações da operação em primeira instância. Neste domingo, o site The Intercept Brasil divulgou mensagens extraídas do aplicativo Telegram que sugerem atuações combinadas entre os dois. Conforme reportou a colunista do GLOBO Bela Megale , o pedido de apuração foi apresentado à Corregedoria do Ministério Público Federal.

Um dos conselheiros que assina o pedido, Erick Venâncio, ressaltou a necessidade de apurar a troca de mensagens, mas disse ainda ser cedo para afirmar se Dallagnol responderá a um processo disciplinar. Além dele, apoiam a investigação no documento os conselheiros Gustavo Rocha, indicado pela Câmara, Luiz Fernando Bandeira de Mello, pelo Senado. O objetivo é que o CNMP apure se o coordenador da força-tarefa cometeu atos ilícitos na Lava-Jato e se agiu com viés ou motivação política.

Mensagens atribuídas ao procurador Dallagnol e Moro mostram os dois combinando atuações enquanto trabalharam na operação Lava-Jato. A reportagem ainda cita mensagens entre os procuradores nas quais eles teriam discutido no aplicativo Telegram uma maneira de barrar a entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizada por um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Neste domingo, a força-tarefa de Curitiba divulgou nota para rebater a reportagem, dizendo que “seus membros foram vítimas de ação criminosa de um hacker que praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público, à vida privada e à segurança de seus integrantes”. Os procuradores afirmaram que sua atuação “é revestida de legalidade, técnica e impessoalidade”. Em nota, Moro negou qualquer irregularidade nas conversas. “Quanto ao conteúdo das mensagens que me citam, não se vislumbra qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado, apesar de terem sido retiradas de contexto e do sensacionalismo das matérias, que ignoram o gigantesco esquema de corrupção revelado pela Operação Lava Jato”.

Obtidas por uma fonte anônima, as comunicações vazadas fazem referências ao processo em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi condenado no caso do tríplex de Guarujá. O pacote inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no aplicativo Telegram de 2015 a 2018. A defesa do líder petista destacou que as conversas revelam violações ao devido processo legal na ação pela qual ele está preso em Curitiba.

Em uma das mensagens de texto, no dia 21 de fevereiro de 2016, Moro sugeriu alterações no calendário das operações da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, em decorrência de desdobramentos políticos. Dallagnol, de acordo com o site, disse ao magistrado que haveria problemas logísticos para acatar a sugestão.

Em outro trecho de conversa, segundo o site, Moro repassou ao procurador Deltan Dallagnol pistas de uma suposta transferência de propriedade para um dos filhos de Lula. “Aparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informação”, disse Moro. “Obrigado, faremos contato”, respondeu o coordenador da força-tarefa.

A pessoa indicada, segundo as mensagens divulgadas, não quis falar com os procuradores. Deltan então escreve a Moro que iria argumentar ter recebido notícia apócrifa para intimá-la a depor. “Melhor formalizar, então”, aconselhou o juiz, diz o site. Por oglobo.globo.com