Jorge fala pela voz da estratégia e tal código de linguagem usa exatamente o silêncio como via de propagação

O aparente silêncio, porém, anda fazendo um barulho ensurdecedor nos ouvidos de quem consegue captar e traduzir o código de linguagem estratégica do petista.

Jorge tem falado! E tem falado muito! Fala pela voz da estratégia. E tal código de linguagem usa exatamente o silêncio como via de propagação.

Jorge Viana, sempre tão ‘falador’, anda calado. Tentarei apresentar o alfabeto utilizado por Jorge Viana nos dias de hoje. Com isso, talvez consiga alfabetizar alguns incautos que, infantilmente, andam subestimando o risco, cada dia mais factível, de retorno do ex-senador ao centro do debate sobre o futuro político do Acre.

Preliminarmente, uma pergunta: pq Jorge não tem feito críticas ao atual governo, considerando que encontrar e apontar equívocos da gestão de Gladson é mais fácil do que empurrar bêbado em ladeira ?

Ora, Jorge não faz por três motivos, todos, por demais elementares. Em primeiro lugar, não faz pq não é preciso, eis que os aliados de Gladson já as fazem. E essa via lhe é mais valiosa.

Das críticas vindas dos aliados de Gladson, evidentemente, Jorge segue plantando em terra fértil e no tempo certo colherá dois frutos extremamente valiosos: o desgaste de Gladson e o desgaste da própria base de Gladson, que é de onde virão alguns dos seus futuros adversários.

O segundo motivo a inspirar o silêncio de Jorge mostra-se como o mais robusto e o mais evidente do ponto de vista estratégico. Chamarei aqui de tática de amortecimento da rejeição.

Explico! Se Jorge Viana optasse por assumir uma linha crítica contra o governo Gladson já agora provocaria efeitos nocivos graves à própria estratégia. Desviaria o poder de fogo dos aliados do atual governo, hoje inclinado quase que integralmente na direção de Gladson, para a sua direção, já que sabe que os aliados do governador não se mostram receptivos à ideia de existirem petistas criticando Gladson.

A guerrinha em meio à base de Gladson assemelha-se a uma briga de marido e mulher. Se Jorge entrasse nessa briga, provocaria inevitável mudança de foco e ele próprio voltaria a ser alvo.

E ainda existe um outro fator. Caso Jorge optasse por mostrar as unhas agora, terminaria estimulando o retorno do debate polarizado, que diminuiriam as críticas a Gladson, já que em tal ambiente surgiria uma certa tendência ao fortalecimento da unidade no seio da base política original do atual governador, nos moldes da antiga oposição.

Um debate comparativo agora é tudo o que Jorge Viana não quer. Mas, no futuro, o comparativo será a sua arma mais poderosa. Para ele, no presente instante, o melhor é seguir assistindo a demonstração de incapacidade política vinda do Gladson e da sua base, do que interromper tal processo por meio de comparativos intempestivos com os governos petistas, já que sabe que é mais fácil o povo esquecer o passado do que vir a perdoar uma possível tragédia do presente.

Trocando em miúdos, Jorge aposta na irreversibilidade da tendência ao fracasso humilhante e precoce do governo Gladson e guarda nela a esperança de que o comparativo futuro se dará entre duas tragédias: a do passado com a do presente.

E é exatamente aí onde Jorge espera levar vantagem, já que comparar tragédias ocorridas em espaços temporais distintos, no caso, o presente e o passado, guarda certa tendência à promoção de vantagens para os autores da tragédia mais distante.

Como a estratégia de Jorge depende do enfraquecimento não somente de Gladson mas também da sua base original, que é de onde emergirão, isolados ou não, alguns dos seus futuros adversários, ao ex-senador evitar a interrupção dos desgastes por meio de possíveis aparições agora não seria razoável do ponto de vista político.

E não se mostra razoável exatamente pq a ampliação dos escombros de Gladson, provocados por aqueles que o apoiaram, é tudo o que o mesmo Jorge precisa para, lá na frente, fazer uso do argumento de que o referido fracasso veio na forma de confissão.

No entanto, para mostrar que ainda estão no jogo, aqui e ali, como se fossem águias olhando por cima, os petistas, liderados por Jorge Viana, postam fotos do “camarote” de onde assistem a tragédia do governo Gladson Cameli e de onde esperam a chegada do tempo certo para a descida fatal em direção às frágeis “cobras indefesas” que hoje acham que estão sozinhas tocando a bola. Ops…trocando passes errados, quis dizer!

Agindo assim, Jorge consegue, por incrível que pareça, ser mais sábio do que o próprio Lula, que quanto mais fala do cárcere, mais e mais alimenta Jair Bolsonaro, que surgiu e espera seguir vivo exatamente em razão de tal contraponto.