Casa construída há quase 80 anos e que marca a história de Cruzeiro do Sul continua abandonada

Segundo historiador, a estrutura é a última casa de seringalistas da região. Prefeitura diz que há um projeto para revitalizar a casa.

A Casa dos Ruelas é uma das primeiras edificações em alvenaria da segunda maior cidade do Acre. A construção que foi baseado na arquitetura europeia, produzida pelo mesmo arquiteto que projetou a Catedral de Nossa Senhora da Glória.

Uma parte importante da história da cidade, mas que atualmente encontra-se abandonada e não há previsão para ser revitalizada.

A casa fica em um morro bem no centro comercial de Cruzeiro do Sul e foi construída em 1940 durante a Segunda Guerra Mundial. O primeiro dono do imóvel foi o português Joaquim Maria Ruela, que chegou ao Acre durante o ciclo da borracha e se tornou um dos principais seringalistas da região do Juruá.

A construção que se desgasta com o tempo e com a ação de vândalos serve hoje apenas como abrigo para viciados em droga que se escondem entre as ruínas para fazer uso de entorpecente. Além disso, é um o principal elemento de poluição visual no centro da maior cidade do vale do Juruá, considerada uma das mas belas do Acre.

Para o historiador Antônio Franciney Rocha, a casa da família Ruela representa o processo de formação, não apenas de Cruzeiro do Sul, mas também simboliza a história da criação de todas as cidades do Vale do Juruá.

“Essa é, talvez, a última casa de um seringalista que está de pé por aqui. Tem uma simbologia grande. Até o local que ela está construída é o marco zero da cidade. Quando o Thaumaturgo desembarcou pela primeira vez na região, esse local já estava ocupado. Tinha outra casa aqui em madeira, de dois pisos, que era chamada de sobrado do Pernambuco, que era outro seringalista dono do local que hoje é Cruzeiro do Sul. Thaumaturgo mediu 100 metros para cada lado da casa e marcou a cidade que surgiu a partir desse ponto”, relata o historiador.

Além de representar o período da borracha, a casa também remete a presença dos europeus na formação histórica das cidades acreanas do Vale do Juruá. O historiador lembra que, tanto em Cruzeiro do Sul, quanto em Marechal Thaumaturgo, Rodrigues Alves, Mâncio Lima e Porto Walter, existem construções no mesmo estilo que foram erguidas pelos padres alemães e por seringalistas que vieram de vários países da Europa.

“Vejo com grande tristeza a situação que se encontra essa casa, porque deveríamos valorizar melhor a nossa história. Não custa muita coisa para recuperar. Pelo menos a fachada ainda temos, mas é uma pena que esteja nessa situação um prédio que representa muito para nossa história”, lamenta Rocha.

O estudante Pablo Henrique, de 17 anos, produziu um estudo sobre a casa. Ele afirma que a construção é uma parte da história viva de Cruzeiro do Sul e cobra a revitalização do prédio.

“Em 2015 houve uma promessa de revitalização dessa casa e nada foi feito até agora. Por isso, estou usando as redes sociais para postar imagens desse ponto tão importante da cidade para tentar fazer com que as autoridades possam recuperá-la”, disse Henrique.

Por meio de um acordo firmado em 2015 na Justiça, entre um empresário que hoje é dono da casa, a Prefeitura de Cruzeiro do Sul e Governo do Estado, houve o compromisso de revitalizar o prédio. Mas o projeto não foi executado, porque o governo moveu uma nova ação alegando falta de recursos para executar a obra e teve parecer favorável.

O secretário de cultural da cidade, Aldemir Maciel, garante que o município vai assumir a responsabilidade pela recuperação da casa e de outros prédios históricos da cidade que também estão desativados.

“Nós já tivemos uma reunião com o Ministério Público e vamos fazer outra no dia 7 de maio. Nessa reunião vamos criar o conselho municipal do patrimônio histórico artístico e cultural do município para que possamos cuidar desses prédios. Vamos fazer o levantamento, o inventário e o tombamento desse e dos outros prédios antes que eles caiam de verdade”, garante Maciel.

Do G1 Acre