Assis Brasil: Devastação e narcotráfico ameaçam no Acre tríplice fronteira Brasil-Peru-Bolívia

Alerta é do jornal do Vaticano, que teme o fim da floresta amazônica nas fronteiras pelo aumento dos desmates, garimpos e tráfico de drogas e armas.

A situação de degradação ambiental, social e econômica na região da tríplice fronteira entre o Brasil, o Peru e a Bolívia, envolvendo centenas de milhares de famílias dos três países, está tão grave que já preocupa até o Vaticano do argentino Papa Francisco.

Concentrada na região de fronteira entre os municípios acreanos de Brasiléia e de Assis Brasil e pequenas e médias cidades dos departamentos (estados) do Peru e da Bolívia, a degradação se origina de intensos conflitos causados pelo avanço do tráfico de drogas e de armas, dos garimpos ilegais e dos crescentes desmatamentos, que põe em risco a existência desta parte importante da floresta da Amazônia sul-americana.

A região fronteiriça também já conta com a ação de membros das facções criminosas, tanto as que atuam nos últimos dois anos em todo o Acre, vindas do Centro-Sul do país, quanto das que já atuam há mais tempo no tráfico de drogas e de armas por todo o Peru, como é o caso do Primeiro Comando da Capital (PCC). Em junho do ano passado, o programa Fantástico, da TV Globo, publicou uma série de reportagens sobre a invasão do Acre pelas facções criminosas do PCC, do Comando Vermelho e do local Bonde dos 13.

Baseado em informações da Rede Eclesial Panamazônica (Repam), organização não governamental vinculada à Igreja Católica do Peru, o jornal Vatican News, órgão oficial de comunicação da Santa Sé, dimensionou a gravidade do clima de verdadeiro faroeste que reina na região de Iñapari, situada exatamente na fronteira com a Bolívia e o município brasileiro de Assis Brasil, por onde se inicia a Rodovia Interoceânica, que liga a Amazônia brasileira ao Pacífico peruano a partir do Acre.

“Entre 2016 e 2019, o cenário mudou completamente, no que antes era uma vila tranquila. Agora, há mortes, assassinatos e sequestros na região de Iñapari”, diz o jornal Vatican News, expressando a preocupação da Santa Sé, durante a Semana Santa, com o crescente desmatamento florestal na tríplice fronteira, culminando num processo de devastação que vem acompanhado de muitos outros problemas sociais causados pelo narcotráfico e garimpos ilegais.

Preocupação com o futuro dos povos tradicionais.

O jornal chama a atenção para a orientação que a Repam tem passado para os madeireiros da região fronteiriça de que, no ritmo atual de desmatamento, só haverá extração de madeira durante os próximos quatro ou cinco anos. “Depois desse tempo, não haverá recurso, não haverá madeira. Já toda a riqueza madeireira da fronteira terá sido comercializada com a China ou o México, principais compradores”, relata o Vatican News, baseando-se nos relatos da Repam.

A Rede Eclesial Panamazônica também manifestou ao Vaticano a sua grande preocupação com o futuro dos povos tradicionais da região fronteiriça, particularmente os indígenas, que estão perdendo sua identidade e vivendo em situação econômica e social precária e à mercê de madeireiros e traficantes de cocaína, droga que tem na Bolívia e no Peru dois dos três maiores produtores mundiais.

O terceiro maior produtor mundial da cocaína é a Colômbia, na fronteira com o vizinho do Acre, o Estado do Amazonas, onde a devastação socioambiental e o narcotráfico já causam, há bem mais tempo, situação de calamidade pública tão ou mais grave que a da tríplice fronteira Brasil, Peru e Bolívia, agora escandalizada até pelo Papa Francisco.

Já faz algum tempo que a Igreja Católica intensifica o debate sobre a deterioração socioambiental na fronteira entre Acre, Peru e Bolívia. Em março passado, representantes dos Vicariatos de Pando, na Bolívia, de Puerto Maldonado, no Peru, e da Diocese de Rio Branco, se reuniram para discutir e entender melhor o que vem acontecendo na região e o que é possível fazer para conter o avanço da devastação socioambiental da região da fronteira entre os três países, já bastante castigada pela intensa atuação dos garimpos ilegais e do tráfico de drogas e de armas.

O encontro dos religiosos mostrou que a pressão dos interesses econômicos está aumentando, o que nessa tríplice fronteira se concretiza na exploração madeireira e mineral, tanto legal quanto ilegal, permeado pelos desmates e o tráfico de drogas e de armas. As três igrejas se encontram desde 2005 tentando traçar estratégias visando alertar às comunidades sobre os problemas advindos dessas atividades.

Com Edmilson Ferreira, do site AC24horas.com, e Rede Eclesial Panamazônica.