Morte de Chico Mendes 30 anos: desmatamento para criação de gado ameaça reserva

Morte de ambientalista faz 30 anos neste sábado (22). Reserva extrativista que leva nome do seringueiro sofre com avanço da pecuária.

Morte de Chico Mendes 30 anos: desmatamento para criação de gado ameaça reserva — Foto: Reprodução/Rede Amazônica Acre

O dia 22 de dezembro marca os 30 anos da morte do líder seringueiro e ambientalista Chico Mendes, morto a tiros em 1988, no município de Xapuri, interior do Acre. Apesar dos avanços na proteção ao meio ambiente e na garantia de direitos dos povos tradicionais, a reserva extrativista que leva o nome do seringueiro sofre com o desmatamento ilegal para criação de gado.

Em reportagem sobre a data, exibida neste sábado (22), a Rede Amazônica Acre mostrou que do ano passado até 2018 foram registrados mais de 600 hectares de floresta destruídos. A BR-317 é o caminho para chegar até Xapuri, local onde fica a reserva. Em todo o caminho o que se vê são fazendas e muito gado de um lado a outro da estrada.

O líder seringueiro foi morto quando saía pela porta para tomar banho do lado de fora da casa dele. Chico Mendes levou tiros de escopeta de Darci Alves, a mando do pai, Darly Alves. Os dois foram condenados a 19 anos de prisão.

A morte de Chico Mendes chocou o mundo e a pressão internacional fez com que o Brasil tomasse medidas urgentes para evitar os conflitos e a devastação da Amazônia. Uma das medidas foi a criação das reservas extrativistas. Em 1990, foi criada a Reserva Extrativista Chico Mendes (Resex).

Quase 1 milhão de hectares, cerca 970 mil km de floresta, se estende por sete municípios: Assis Brasil, Brasileia, Capixaba, Epitaciolândia, Sena Madureira, Xapuri e Rio Branco. A área é utilizada por populações extrativistas tradicionais, e tem como objetivo proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, além de assegurar o uso sustentável dos recursos naturais, mas os preços baixos dos produtos da floresta e a dificuldade de mercado trazem para dentro da Resex problemas antigos.

Desmatamento aumentou na região para a criação de pastos — Foto: Reprodução/Rede Amazônica Acre

Desmatamento

O desmatamento acumulado entre 1988 a 2016 resultou em um impacto de 60.670 mil hectares (606,70 km2), correspondendo a 6,5% de perda da cobertura florestal original. Uma área quase do tamanho de Florianópolis (675,4 km²). Estima-se que quase 50 mil cabeças de gado sejam criadas dentro da reserva.

“Os produtos extrativistas custam a chegar no mercado e acaba quem está aqui dentro, querendo trocar pela pecuária, que é o meio mais fácil e mais rápido de se fazer comércio. Na frente da reserva tem fazenda que compra esse gado. Tem frigoríficos que recebem esse gado. Então, ele tem mercado muito mais à disposição”, explica o chefe da reserva, Flúvio Mascarenhas.

Para criar gado é preciso de espaço. Os focos de desmatamento estão por toda a reserva. Na última operação do ICMBio [ Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], no mês de novembro, foram constatados mais de 600 hectares de mata que viraram pasto.

A devastação destruiu toda a área e colocou abaixo também árvores gigantescas como a samaúma. Mesmo no período de chuva na região, o desmatamento acontece. Esse absurdo também chegou na nascente de um igarapé.

Mascarenhas explica que há o risco de perder o patrimônio, devido à falta de viabilização de políticas públicas para a área florestal e também para o extrativismo.

“Sabemos que hoje tem grandes produtos que são quase que comódites, o açaí é um, a castanha, ou seja, que tem mercado garantido, mas tem sua sazonalidade. Tem ano em que a produção vai ser maior e o preço baixar. Em outro, a produção vai ser menor e o preço vai aumentar”, fala.

O chefe da reserva fala ainda que essas comódites acabam incentivando a peculiarização na reserva extrativista. “Ou seja, aquele extrativista que consegue um bom lucro com a castanha, em vez dele investir em outras coisas vai investir em pecuária. Isso é o que a gente tem que lutar pra que não aconteça dentro da reserva”, lamenta.

Mesmo ameaçada, a reserva que leva o nome do seringalista é uma referência de preservação. O chefe do local destaca que a reserva está em uma zona de pressão do desmatamento que vem desde o sul do Pará, passa pelo Mato Grosso do Sul, Rondônia e a ponta final do arco fica no Acre.

“Pode até dá uma impressão de fracasso para quem está vendo de fora e não entende o contexto, mas a reserva extrativista Chico Mendes, ao longo desses 30 anos, tem segurado o desmatamento nessa área no Acre. Está protegendo outras áreas indígenas e outras unidades de conservação, mantém ainda a cobertura florestal da floresta dela. Então, se não tivesse a reserva, provavelmente, mais de 60% dessa floresta já estaria no chão”, finaliza.

Por Jefson Dourado, Jornal do Acre 1ª edição