Chico Mendes morreu duas vezes

No mundo inteiro, em dezembro, mais precisamente dia 22 deste mês, são feitas referências ao líder seringueiro Chico Mendes, dada sua luta pela vida na floresta, num contexto mais amplo.

Apesar de ter recebido até o Prêmio Global de Preservação Ambiental da ONU, nunca teve uma casa adequada para os padrões urbanos, ao ponto de ter sido vítima de uma tocaia ao sair à noite para seu banheiro externo.

Então, num primeiro e fatídico momento de 1988, temos a primeira morte – a física – de Francisco Alves Mendes Filho que, segundo investigações, feita a mando de fazendeiros que não concordavam com sua política em defesa das florestas, o que punha em conflito os interesses expansionistas de derrubadas/queimadas/campo/gado.

Na época, sua morte causou comoção no estado pela forma covarde de seu assassinato. No entanto, a figura dele como ambientalista, “cercado” por gringos, sempre dividiu a opinião da sociedade.

Eis que nos sobrevém, então, a segunda morte. Desta vez, ideológica, pois desaparecem os ideais de igualdade, respeito, liberdade e direito à vida e à preservação das culturas dos povos da floresta… Tudo isso veio com o fim da era petista, que encerrou seus 20 anos de mando no estado, sem concretizar o sonho socialista de Chico Mendes.

Apesar de usarem a frase “Chico Mendes Vive”, na prática suas ideias não seguiram adiante.

Um ideal destruído por iniciativas capitalistas, pintadas de verde e implementadas no estado com a alcunha de “Florestania”, que resultou em projetos de exploração florestal madeireira  e de todas as políticas de compensação ambiental e climáticas derivadas das falsas soluções do capitalismo verde e o descontrole total do uso racional das reservas (13% em toda Amazônia) em favor de criação de gado. 

A própria Folha de São Paulo, em matéria escrita ontem, 21, por Carazzai, relata que os ex-seringueiros deixaram de lado os sapatos feitos à base de látex e adotaram o estilo country, dada a invasão da criação de gado nas reservas acima do limite permitido, abrindo caminho para o sonho da Hilux e de um padrão de vida bem acima do que ofereciam os fracassados programas de subsídios da borracha e da castanha em décadas passadas.

Finalmente, passados 30 anos, qual o legado que a Frente Popular deixou para preservação do lendário Chico Mendes no imaginário da população do Acre? Não há dúvidas que uma casta ultra seleta conseguiu seus usufrutos, mas e o restante?

Se ao povo restou, como consolo, o nome de um Instituto (ICMBIO) e de outros inúmeros logradouros públicos espalhados mundo afora, quem dera que ele pudesse ressuscitar e cobrar a prestação de contas de muitos!

Infelizmente, nem todas as flores do mundo, depositadas em seu mausoléu, seriam suficientes para perdoar os malfeitores que deixaram o “melhor projeto” de lado para atender as demandas imperialistas.

Resta saber, no futuro, se até 2120 algo revolucionário fará do bilhete do “militante”, “herói da floresta”, “Chico rei”, “líder dos empates”, uma realidade… Porque, por enquanto, nos resta apenas lê-lo:

“Atenção jovem do futuro, 6 de Setembro do ano de 2120, aniversário ou centenário da Revolução Socialista Mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade. Aqui fica somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte. Desculpem… Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos; que eu mesmo não verei mas tenho o prazer de ter sonhado Bilhete de Chico Mendes, escrito em 1988, ano de seu assassinato”.