As palavras que ele me dizia machucavam muito. Eu preferia levar um tapa, quem sabe assim conseguisse esquecer. Tudo que foi dito abriu uma ferida dentro de mim.

O relato é da artesã acreana Francisca Silva, 44 anos, vítima de um relacionamento abusivo por 16 anos.

O trato hostil do marido se agravou bastante após meia década de casamento. O que antes era naturalizado, por se tratar do “jeito dele”, expressou-se de maneira mais contundente: violência psicológica e moral.

“Ele dizia que eu era velha e gorda, mas uma das piores coisas era quando falava que arranjaria uma pessoa mais nova, porque eu não dava mais cria [pudesse engravidar]. Isso até hoje não consegui esquecer totalmente”, relembra Francisca, que ao procurar ajuda médica se deparou com as acusações de que não estava doente e inventava tudo para sair de casa.

As cores do esmalte e do batom também passavam pelo crivo do agressor. “Se eu pintasse as unhas ou a boca com cores mais fortes, ele dizia que era jeito de vagabunda, de prostituta. Uma vez cortei o cabelo, e ao chegar em casa ouvi que o restante seria cortado de terçado [facão]”.

E foi assim que artesã viu o sonho do casamento feliz se transformar em um pesadelo. Oprimida, ela pensou em desistir várias vezes. “Pensava em parar de viver. Já não conseguia mais ficar sozinha e aos poucos parei de sair de casa.”

A ausência de agressão física não torna a relação abusiva menos nociva. De acordo com a psicóloga Talita Montysuma, os relatos de maus-tratos psíquicos estão sempre disfarçados de amor.

“Tudo que tira a individualidade e a liberdade da pessoa ao lado é abusivo. Coisas comuns e corriqueiras como mexer no celular, controle de horários, costumes, roupas, entre outras práticas, são características de atitudes abusivas que se intensificam com os xingamentos e, às vezes, cárcere privado”, alerta a profissional.

Ajuda especializada

O medo, a angústia e a depressão passaram a assolar a vida de Francisca. Encorajada pelos filhos e pela vontade de ser feliz, decidiu procurar ajuda no Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceam) – a cidade não é mencionada na reportagem para preservar a imagem da vítima.

“Teve um momento em que eu não aguentei mais e decidi buscar ajuda. Foi aí que conheci as meninas do Ceam. Iniciei um tratamento psicológico, e o acolhimento recebido fez toda a diferença na minha vida”, reconhece a vítima, que precisou tomar antidepressivos por dois anos.

O governo do Estado, por meio da Secretaria de Políticas para Mulheres (SEPMulheres), implementou centros de atendimento nas regionais do Alto e Baixo Acre, Purus e Vale do Juruá. Nesses locais, o público feminino desfruta de um serviço de acolhimento profissional e acesso gratuito à assistência social, psicológica e jurídica.

A gestora da SEPMulheres, Concita Maia, é enfática ao afirmar que, em situações de relacionamento abusivo, o Estado mete a colher. “Temos que dar resposta à sociedade com políticas públicas e ações afirmativas. Nesse sentido, encabeçamos a campanha ‘Quem Ama Abraça na Comunidade’, com o propósito de fomentar o debate e levar informação, pois elas salvam vidas”, salientou.

Desde 2006, o Brasil dispõe de uma das legislações mais completas no enfrentamento à violência contra a mulher: a Lei Maria da Penha. Em março de 2015, o instrumento jurídico ganhou reforço com a sanção, pela então presidente Dilma Rousseff, da Lei do Feminicídio.

Ainda assim, o Brasil encontra-se entre os dez países com maior taxa de violência contra a mulher, ocupando a quinta posição no ranking do Mapa da Violência, divulgado no ano passado. O machismo alimenta esse cenário, ressalta Concita: “Nossa luta é por equidade de gênero e respeito”.

O recomeço

O auxílio médico foi determinante para a recuperação de Francisca, divorciada há três anos. “Aquele pensamento que eu tinha saiu: ‘Você é mais forte e consegue’, fui colocando isso na minha mente. Hoje, compreendo que não vale a pena viver uma relação abusiva só para criar os filhos próximos ao marido e dizer que tenho uma família”.

Ao romper o ciclo de violência, a artesã se lançou para o mercado de trabalho. Hoje é gestora pública e atua na promoção de oficinas de arte (reciclagem de produtos) às comunidades em situação de vulnerabilidade social.

Com o emprego conseguiu comprar a casa própria, onde mora com os dois filhos mais novos. O primogênito é casado. As marcas de um relacionamento abusivo ainda atormentam o imaginário da acreana, que utiliza as memórias para empoderar outras vítimas.

A Francisca de hoje é uma guerreira que aconselha outras mulheres de que não vale a pena seguir sendo maltratada. Primeiramente, você precisa se amar do jeito que é, pois só assim se alcança a felicidade. A Francisca de hoje é uma águia, que mesmo no fundo do poço, com todas as penas caídas, recomeçou. Deus coloca as pessoas no caminho da gente, mas quando percorremos em grupo torna-se breve e proveitoso. Busque ajuda, denuncie

Por agencia.ac