“O Brasil vai virar essa página triste da sua história, construindo uma economia de mercado, porque o mercado é a mão de Deus reconhecendo a iniciativa individual e o mérito para gerar prosperidade e riqueza”.

Por Cesário Campelo Braga

Enquanto lia esse parágrafo de uma reportagem onde o “empresário candidato” Valdir Perazzo conclama empresários, estudantes, profissionais liberais e o povo em geral do Acre a conhecer melhor o “Movimento Brasil 200”, e nele se engajar, observava uma mãe e seu filho que reviravam os lixeiros na rua da minha casa em busca de algo que lhes servisse, e pensei: qual será o conceito de mérito do dito empresário/candidato? Ele sabe que está se valendo de Deus para justificar a exploração da classe trabalhadora pela burguesia?

No dia 17 de janeiro, na maior feira de atacadistas do mundo em Nova York, o dono das lojas Riachuelo, Flávio Rocha, lançou uma carta aos empresários participantes, inaugurando o “MOVIMENTO BRASIL 200”. Nela, o rico empresário apresenta 10 princípios para solução dos problemas econômicos e sociais do Brasil, pautados em uma maior desregulamentação das leis trabalhistas (ele propõe, por exemplo, o fim da Justiça do Trabalho) e a liberdade de mercado com o Estado mínimo. Criticando abertamente o “paternalismo” do Estado brasileiro.

Só pra lembrarem, o “Estado Paternalista” é expressão que denomina um Estado que cuida de forma paterna de seus cidadãos, impondo medidas, quando necessárias, para que todos tenham as mesmas condições. É como um bom pai que determina que os filhos que ganham melhor paguem impostos para financiar garantias para os filhos que pouco ou nada ganham – como saúde publica através do SUS, educação gratuita, programas de assistência social como o Bolsa Família, previdência publica, ou a intervenção estatal em algumas empresas consideradas estratégicas para a soberania nacional como a PETROBRAS.

Interessante notar o ambiente e o público para os quais foi lançado o manifesto. Mais interessante ainda é imaginar os maiores varejistas do Brasil e do mundo juntos e preocupados, inclusive, com aquela senhora e seu filho que catavam lixo na minha rua. Ou até mesmo ver nosso empresário/candidato se apropriar dessa “luta” que ao fim e ao cabo não passa do desejo expresso, assinado e publicado de diversos atacadistas globais de ampliar suas margens de lucro à custa do trabalhador, que ficará desamparado e desesperado, caso propostas tão maléficas tenham êxito.

Mas, você deve estar se perguntado: se o mercado é a mão de Deus reconhecendo o mérito, não pode haver injustiças no liberalismo, como eu tantas vezes tento fazer crer? Afinal, Deus é Justiça e Amor. Porém, o mercado é feito de homens ricos cujo interesse é única e exclusivamente de homens ricos. Utilizar-se de Deus para justificar as desigualdades ou o mérito como determinante do sucesso é baixo e rasteiro.

Não existe uma disputa justa na sociedade para que o mérito seja o fator determinante no sucesso e Deus possa avalizar com sua destra o resultado final. Não existe igualdade na largada, logo não existe mérito no resultado da disputa.

O filho da tiazinha que catava algo do que alimentar-se em meio ao lixo e o filho do empresário/candidato não partem do mesmo ponto na sociedade. O filho da tiazinha provavelmente não tem o que comer todos os dias e, se conseguir chegar a cursar uma faculdade, terá que trabalhar e estudar para ajudar a manter a sua casa. Logo, quando concluir o curso dificilmente terá capital ou margem de crédito para iniciar um negócio. Já o filho do empresário/candidato goza de todos os privilégios que a riqueza lhe permitiu ter. Assim, se o filho do empresário/candidato se tornar dono da empresa do seu pai e o filho da tiazinha se tornar funcionário dele, não foi o mérito que determinou a chegada, mas as condições do ponto de partida.

É mais ou menos como uma corrida de atletismo de 100 metros com o jamaicano Usain Bolt disputando contra um tetraplégico, onde Bolt larga com 99 metros de vantagem. Existe mérito em vencer essa corrida? Ou como eu acredito, não passa da perpetuação das desigualdades, que tendem a se replicar se não houver intervenções “paternalistas” do Estado?

É compreensível que nosso empresário/candidato, assim como o rico dono da Riachuelo, defenda um sistema liberal, sem Estado, pois isso é questão de sobrevivência. Quanto menos Estado para proteger o cidadão, maior é a chance de um rico ficar cada vez mais rico. O que não entendo e não aceito é serem desonestos intelectualmente, falando e ainda querendo fazer crer que o liberalismo poderá dar oportunidade aos pobres. E pior ainda: quererem se valer desse discurso para se elegerem a algum cargo político.