Alta carga horária, baixos salários e falta de emprego estão entre as reclamações

Caroline Apple, do R7

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A rotina dos haitianos do Brasil não é fácil. A procura constante por trabalho e melhores condições de vida é a bandeira desses imigrantes que empunham com orgulho a carteira de trabalho brasileira.

Apesar do sentimento de gratidão com o Brasil, a desilusão com as condições de trabalho é um assunto comentado por muitas dessas pessoas.

No centro de acolhida onde os haitianos são recebidos na rua do Glicério, região central da cidade, e acompanhou um pouco da rotina desses “brasileiros por opção”.

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Yousens Joseph afirma que está muito difícil de arrumar emprego no Brasil. O haitiano, que está no País há um ano, conta que achou que os salários pagos aqui seriam melhores e também critica a jornada de trabalho.   

— Passamos muito tempo trabalhando e não temos tempo para estudar e nem colocar em prática as coisas que aprendemos. Por outro lado, no Haiti, a formação é muita cara

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Há um ano e meio no Brasil, Francois Dieuseul, de 30 anos, que prefere não mostrar o rosto, participava de uma das palestras de integração obrigatório para quem quer tentar uma vaga nas  empresas interessadas em contratar haitianos.  

Apesar de estar empregado, Dieuseul procura uma nova oportunidade no mercado e lamenta a jornada de trabalho no Brasil.   

— Aqui trabalhamos muito para ganhar pouco e, se quiser ganhar mais tem que fazer hora extra. Não dá tempo para fazer nada além de trabalhar, mas a moeda do Brasil vale mais que a nossa, então compensa. 

O haitiano trabalhava como motorista e intérprete de americanos no Haiti. Há dois meses trouxe a mulher e o filho para o Brasil, mas garante que quer voltar um dia para o Haiti.   

— Estou guardando dinheiro. Um dia quero voltar com a minha família para o nosso País

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O haitiano Jean Wilbert, de 34 anos, está no Brasil há dois anos. Ele, geralmente, trabalha como pedreiro, mas está desempregado há cinco meses. Com o “portunhol”, o imigrante se vira bem na comunicação, o que acaba sendo um diferencial. 

Wilbert diz estar decepcionado com o período sem trabalho, mas, mesmo assim, ainda acredita no Brasil.   

— Precisamos de oportunidades. Tem gente que tem família no Haiti e precisa mandar dinheiro. E, mesmo desempregado, aqui sempre será melhor. Temos esperança

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O imigrante Bernardo Franck, de 29 anos, é formado em direito e cursa a faculdade de Serviço Social, mas, mesmo assim, não consegue emprego na área administrativa e está desempregado há oito meses.   

— Acho que no Brasil existe preconceito para colocar o haitiano nos escritórios. Mesmo com toda minha formação, só consigo trabalho de atendente.

Franck trabalhou na área de frios de um supermercado e culpa a crise pela atual baixa oferta de trabalho.   

— A crise atingiu todo mundo e preconceito acontece em todo lugar, não só no Brasil

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O centro de acolhida, que fica na rua do Glicério, região central de São Paulo, é o primeiro ponto de parada quando os haitianos chegam à capital.

É lá que que os imigrantes desembarcam dos ônibus vindos do Acre. Uma decisão da Justiça suspendeu a vinda dos haitianos via prefeitura, mas ainda há estrangeiros com condições financeiras próprias que desembarcam em São Paulo.

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O local dá abrigo para quem não tem onde dormir, mas, de acordo com o padre Paolo Parise, nos últimos dois meses, o espaço tem servido apenas de local de transição, já que muitos haitianos tem escolhido o Estado de Santa Catarina como destino final.

Os imigrantes que chegam, geralmente, já tiraram CPF e carteira de trabalho no Acre, onde demoram até 25 dias para chegar.

Em São Paulo, os haitianos são obrigados a passar por palestras para conhecer as condições de trabalho, a cultura do País e como se comportar em entrevistas de emprego

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As palestras são ministradas em inglês e francês, a língua mais comum no País. Só quem passa por essas reuniões é que pode se candidatar às vagas oferecidas por empregadores que procuram o centro para contratar haitianos

Os empregadores que desejam contratar haitianos também têm que passar pelas palestras. As entrevistas, posteriormente, acontecem no local.

A principais áreas de atuação dos haitianos são a construção civil e atendimento em supermercados

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O lugar conta com voluntários como a aposentada Maria Kovacs, de 64 anos. A mulher, de origem húngara e poliglota, chegou na quarta-feira (27) para se voluntariar e já começou a trabalhar.

— Vi uma reportagem e resolvi ajudar. Estou aposentada e não pago condução. Pelo menos algo de bom faço pela cidade e por essas pessoas

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Na ocasião, a Secretaria Municipal de Saúde fez uma ação para checar a saúde dos haitianos e atualizar as carteiras de vacinação.

Para ajudar, Maria Kovacs exerceu a função de tradutora voluntária

Muitos dos haitianos preferem não conversar e se identificar, mas o cansaço nos olhares é evidente

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Apesar da gratidão pelo Brasil, muitos assumem que se desiludiram com as condições de trabalho no País.

A alta carga horária para os padrões do Haiti e a falta de oportunidade para assumirem cargos na área administrativa estão entre as queixas. Mesmo assim, é unânime que as condições de vida brasileira ainda são superiores às vividas no Haiti

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O padre Paolo conta que a questão da desilusão existe em muitos casos.

Certa vez, de acordo com o pároco, um haitiano vendeu muitos bens para vir tentar a vida no Brasil, mas quando chegou e viu as dificuldades entrou em desespero, caiu de joelhos e começou a chorar

É comum haitianos venderem bens e fazerem empréstimos para virem ao Brasil

Toda ilusão se deve à fama do Brasil de “País das oportunidades”, uma versão subdesenvolvida dos EUA

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Porém, a realidade é bem diferente. Inclusive, alguns haitianos têm falado sobre a realidade do mercado de trabalho para amigos na Haiti, mas, paradoxalmente, ainda recomendam o País, porque as condições no Haiti são muito piores

Foto: Caroline Apple/R7