Grupo de jovens despertou controvérsia após publicação de vídeos na internet

Por Marcelo Gonzatto

Jovens praticam exercícios no Parque da Redenção Foto: Arthur Bloise / Arquivo pessoal
Jovens praticam exercícios no Parque da Redenção Foto: Arthur Bloise / Arquivo pessoal

A combinação entre devoção religiosa e treinamento de inspiração militar, motivo de polêmica nacional nos último dias devido à divulgação de vídeos da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) do Ceará, também está presente em Porto Alegre.

Nos vídeos publicados no YouTube — vários dos quais foram apagados após a repercussão do caso —, rapazes de uniforme identificados como Gladiadores do Altar marcham, batem continência e oram.

Na Capital, um grupo dos chamados “gladiadores” se reúne uma vez por semana no templo localizado na Avenida Júlio de Castilhos, no Centro. Em duas ligações feitas para o local, foi informado que a turma de jovens promove encontros sob a supervisão do pastor Augusto Albuquerque. Além disso, dezenas de jovens que também são tratados pela denominação de gladiadores costumam marchar e fazer exercícios no Parque da Redenção — mas não há confirmação formal da Iurd de que todos sejam membros da igreja.

A movimentação nas manhãs de sábado e domingo chama a atenção, há cerca de um mês, do coordenador-geral da Associação dos Servidores da UFRGS (Assufrgs), Arthur Bloise. Dezenas de homens marcham na área próxima ao Auditório Araujo Vianna, se perfilam, correm em grupo e praticam flexões enquanto entoam cânticos religiosos. Todos os comandos são dados chamando-os de gladiadores (referência aos antigos lutadores romanos que combatiam entre si ou contra feras).

— Primeiro cheguei a pensar que pudesse ser o pelotão do Colégio Militar, mas eles só fazem exercícios na Redenção durante a semana. Quando me aproximei, vi que diziam palavras de ordem muito semelhantes àquelas utilizadas no vídeo da Igreja Universal do Ceará — conta Bloise, que registrou a movimentação em fotos.

A Universal não confirmou que esse grupo retratado, especificamente, faça parte da igreja. Em uma das fotos feitas por Bloise, porém, um dos jovens utiliza uma camiseta da Força Jovem Universal (vermelha, branca e azul com colarinho azul e distintivo) — grupo social da Iurd que promove atividades “culturais, sociais, esportivas e espirituais”. Entre os projetos anunciados estão iniciativas de combate às drogas, doação de sangue, oferta de cursos gratuitos e, desde janeiro, o programa Gladiadores do Altar.

Após a divulgação dos vídeos que mesclam fervor religioso e disciplina militar, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) publicou um texto pedindo providências do Ministério Público pelo temor de possíveis ações praticadas pelo que chamou de “fundamentalismo religioso”.

— Essas coisas não são tomadas como sérias, sempre fechamos os olhos para o fundamentalismo religioso, que já virou uma força política — afirmou o deputado em entrevista à Rádio Gaúcha.

Em nota enviada a ZH, a Iurd classifica a controvérsia como uma “falsa polêmica” promovida por “internautas e alguns maus jornalistas”. Conforme a igreja, o projeto dos gladiadores é voltado ao ensino bíblico e trata-se de um “programa que procura auxiliar os jovens, no Brasil e em outros países, que se sentem vocacionados para o trabalho missionário. Em sua maioria, são pessoas que pretendem retribuir o apoio que receberam quando estavam em situação de risco ou vulnerabilidade social.”

Gladiadores do Altar já reúne mais de 4 mil jovens no Brasil

Lançado há apenas dois meses, o programa Gladiadores do Altar já reúne cerca de 4,3 mil seguidores no país, conforme informação da própria entidade.

São jovens de até 26 anos de idade, estudantes e trabalhadores em geral, que assistem a aulas semanais de 45 minutos sobre a Bíblia com um bispo ou pastor. Segundo nota oficial divulgada pela Iurd, nesses encontros não é realizada “nenhuma prática militar ou semelhante”.

Nos vídeos divulgados recentemente, porém, o cenário é outro. Em templos localizados no Brasil e em outros países, como Argentina e Colômbia, dezenas de participantes uniformizados entram marchando pelos corredores, se perfilam junto ao altar, prestam continência e respondem em uníssono a comandos de um pastor. Quando perguntados sobre o que querem, gritam:

— O altar, o altar, o altar.

A nota da igreja argumenta que os jovens fizeram “eventos únicos” para marcar o lançamento do projeto e que não se trata da formação de um “exército fundamentalista”.

Veja vídeo dos “Gladiadores do Altar”:

Fonte: zh.clicrbs.com.br