Os verdadeiros criminosos e muito menos os torturadores dos inocentes chegaram a ser punidos.

O jovem Davi Camurça, era um dos principais personagens do Caso Luziene, que teve grande repercussão na crônica policial do Acre e que, até o momento, não teve os responsáveis punidos. De acordo com o que foi divulgado, Davi Camurça estava sofrendo de depressão já há algum tempo. No final da tarde deste domingo, Davi tomou a decisão de tirar a própria vida. Ele não deixou nenhuma carta.

Camurça, então namorado de Luziene Queróz, que tinha 17 anos à época, teria sido a pessoa que levou ao local onde se encontravam os outros acusados. Lá, eles a estupraram e a mataram e depois jogaram seu corpo mutilado em um terreno baldio próximo a uma igreja em Sena Madureira.

O caso Luziene aconteceu em maio de 1999 e ganhou repercussão pela brutalidade do crime. Ele tomou proporções de conspiração quando soube-se que os três primeiros suspeitos que haviam sido presos pela polícia eram, na verdade, inocentes e haviam sido incluídos no caso como “bucha”, conforme se diz no jargão popular.

O três jovens inocentes, Ozia Ferreira da Costa, Roney da Silva Chaves e Ernandes da Silva Chaves, todos agricultores, foram torturados pela Polícia Militar, que tinha como comandante o então tenente da PM, Werlles Fernandes da Rocha, o agora deputado Major Rocha. Havia dezenas de testemunhas que garantiam que Roney e Ozias não estavam na cidade no dia e hora do crime. Eles estavam no seringal Liberdade, às margens do rio Macauã (cerca de cinco horas de viagem de barco de Sena Madureira). Uma investigação posterior realizada pelo Ministério Público Estadual, revelou que os dois menores foram torturados por policiais militares, sob o comando, naquele período, do Tenente Rocha para atribuir a culpa aos agricultores do município.

O advogado Gumercindo Rodrigues, que defendeu os três agricultores, contou que Hernandes, Roney e Ozias foram vítimas de torturas físicas e psicológicas. Ele garante que Hernandes e Roney sofreram choques elétricos, socos e outras agressões dentro do quartel da PM. Seus torturadores eram diversos policiais militares comandados pelo tenente Major Rocha.

Ozias sofreu algo pior que as dores da violência na carne. Ele foi impiedosamente torturado psicologicamente. Em seu depoimento, ele contou que foi tirado da delegacia em uma madrugada e levado para a estrada (BR-364) pelo tenente Rocha.

No carro havia o motorista, outra pessoa vestida à paisana no lado do passageiro na parte da frente do carro. Ele foi colocado no banco traseiro e sentou ao lado de uma mulher. Em seguida, sentou o tenente Major Rocha, deixando Ozias no meio.

No trajeto, a viatura vinha se comunicando com outra, onde o tenente Rocha exigia que ele confessasse, pois só assim escaparia da morte, já que seus amigos teriam sido levados para outra viatura e já estariam mortos. “Esse foi o relato feito por ele em juízo”, garantiu Gumercindo.

Segundo esse relato, o tenente Major Rocha teria afirmado a Ozias que o passageiro da frente era o promotor de Justiça do Caso e que a mulher ao seu lado era a juíza. “O Ozias não sabia quem era promotor ou quem era a juíza, ele só sabia que tinha um promotor e uma juíza no carro”. Tal informação serviria para intimidar ainda mais Ozias, fazendo-o crer que a sua possível execução contaria com o apoio das principais autoridades da cidade. “Depois ele soube que essa mulher que estava no carro era uma policial conhecida por Mariazinha, que é uma policial de Rio Branco.

Vindo na estrada para o local onde ocorreria a suposta execução, Ozias era sempre instigado a “confessar” o crime. “Ele dizia para ele confessar, se não ia ser morto. Ele respondia: mas eu não estava, eu não sei”.

Quando foi chegando ao local onde Ozias seria morto, por volta de meia noite, parou a outra viatura da PM atrás. Ozias relatou que ouviu alguns tiros e gritos como se fossem gritos de morte. Rocha teria mandado que Ozias descesse do carro. “Ele não conseguiu descer porque estava paralisado. Ele não conseguia se mexer de medo, foi preciso ser retirado do carro”.

O ponto mais apavorante e cruel do relato de Ozias sobre a tortura psicológica vem a seguir, quando outro oficial da PM se aproximou, ele estava trazendo nas mãos um calção e uma camiseta manchada de alguma coisa que representaria sangue. Daí, a conversa se deu entre o tenente Rocha e o oficial. O diálogo foi mais ou menos assim: “E aí, que tal?”, pergunta Rocha. O outro retruca: “Tem que está só arquejando, mas já estão mortos. Vamos levar esse aí já lá pra dentro [do mato]”.

Gumercindo conta que Ozias desmaiava toda vez que ouvia o relato. A conversa continuava entre os dois policiais, inclusive afirmando que ele poderia ser morto naquele mesmo local, seguido sempre de desmaios de Ozias. A certa altura, ele resolveu concordar com uma confissão e teria dito para os policiais que concordaria com tudo que dissessem. Ozias foi levado de volta ao quartel da PM onde permaneceu sofrendo novas torturas psicológicas.

Além de Davi Camurça, Domingos Martins da Silva Filho, o Barna, Ernanes Nunes de Castro e o filho da deputada estadual Toinha Vieira, conhecido como Tácio teriam sido os responsáveis pela morte de Luziene. Os três primeiros chegaram a cumprir alguns meses de prisão, mas nunca foram realmente punidos pelo crime. Tácio chegou a sair do Acre para não ser preso.

A PM chegou a realizar um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar as suspeitas de tortura. Entretanto, já se passara mais de dois anos desde o fato ocorrido, o que levou a PM a encerrar o carro sob a alegação de que não restara marcas que comprovasse o crime.

Desta feita, nem os verdadeiros criminosos e muito menos os torturadores dos inocentes chegaram a ser punidos.