Cidade de 109 anos foi se desenvolvendo em meio às ladeiras.

Ladeira localizada no Morro da Glória, em Cruzeiro do Sul (Foto: Francisco Rocha/G1)
Ladeira localizada no Morro da Glória, em Cruzeiro do Sul (Foto: Francisco Rocha/G1)

Formação do relevo é pesquisada pela Universidade Federal do Acre.

Ladeira do Bode, Ladeira da Remela, Morro dos Quibes e estrada Tiro ao Alvo. Não é à toa que Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do Acre, é conhecida como a cidade das ladeiras. Com um revelo que difere do restante dos municípios acreanos, a cidade de 109 anos foi se desenvolvendo em meio aos altos e baixos e chama a atenção com ladeiras que ultrapassam os 10 metros de altura.

Algumas de suas ladeiras foram batizadas com nomes inusitados pelos próprios moradores. Um dos morros mais altos de Cruzeiro do Sul é o Morro da Glória, localizado na região central. O nome é uma homenagem à padroeira Nossa Senhora da Glória, que teve a primeira igreja construída no alto do morro por arquitetos alemães, na década de 1930.

Quem vai ao Morro da Glória, pela Avenida Boulevard Thaumatugo, passa pela escadaria da escola São José, sobe a ladeira do Paraíba, passa pelo Café no Morro e contempla a beleza da cidade lá do alto. O local inspira muitos artistas locais como é o caso do cantor e compositor Alberan Morais.

“Olhar a cidade aqui de cima faz a gente viajar nos pensamentos, já gravei três discos, quase todas as músicas foram feitas aqui no alto do morro. Sempre digo que aqui é minha área onde tenho inspirações, todos os dias subo o morro para contemplar o horizonte”, diz o cantor.  

Ladeiras de Cruzeiro do Sul (Foto: Francisco Rocha/G1)Cruzamento na subida da Ladeira da Remela (Foto: Francisco Rocha/G1)
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Ainda no Centro, na descida da ladeira do Cais, está o Mercado Sebastião Edwirges, conhecido popularmente como ‘Minhocão’, cheio de frutas e verduras, onde ocorre a feira livre aos sábados. O mercado, construído há 13 anos pela prefeitura municipal, recebeu o nome por ser longo e estreito.

adilio_nogueiraQuem passa pelo Minhocão tem que subir pelo Cais que ainda mantém a mesma estrutura dos anos de 1900. O Cais faz parte da história de Cruzeiro do Sul. “Por ele, chegavam os navios e o progresso da cidade. Isolada na faixa de fronteira com o Peru, o único acesso ao restante do país era pelo Rio Juruá, quando um navio se aproximava o povo todo corria para o Cais, para receber os visitantes”, lembra seu Adílio Nogueira Maciel, de 101 anos, um dos moradores mais antigos da cidade.

Próximo ao Centro está o bairro da Baixa, onde fica o Morro dos Quibes, partindo para outro lado da cidade. Passando pela Avenida Copacabana, tem a Ladeira do Bode e a Ladeira da Remela. Subindo a Avenida 25 de Agosto, chega na estrada do Tiro ao Alvo. Seguindo em frente, encontram-se mais algumas ladeiras pelo bairros Cruzeirão e Telégrafo. Lá, está mais um morro sem tamanho, o Morro do Bezerrão, que tem o nome de um ginásio coberto construído na subida da ladeira, por um dos prefeitos da cidade que tinha o sobrenome “Bezerra”.

Choque entre placas tectônicas

As ladeiras e morros espalhados por toda a cidade chamam atenção até mesmo de pesquisadores. Um desses é o engenheiro agrônomo e mestre em ciência do solo, Elízio Ferreira Frade Júnior, da Universidade Federal do Acre (Ufac), que realiza um estudo sobre o solo da região.

pintor_subindo_a_ladeiraDe acordo com o pesquisador, a resposta para a formação do relevo ondulado de Cruzeiro do Sul pode ser encontrada no Peru, país que faz fronteira com o município. Isso porque, a formação geológica seria resultado do choque entre duas placas tectônicas: a Placa de Nazca e a Placa Sul-Americana, fenômeno que deu origem ainda a Cordilheira dos Andes, cerca de 4 milhões de anos atrás.

“O fato desses municípios do Vale do Juruá estarem perto do Peru onde aconteceu esse fenômeno entre as placas tectônicas, causou um abalo na estrutura da terra nesta área de fronteira. E quando acontece esse choque, o impacto causa uma contração na terra formando ondulações”, explica.

Ele diz ainda que outros estudos feitos por pesquisadores da Ufac, indicam que antes do movimento das placas tectônicas, o Vale do Juruá, região onde fica Cruzeiro do Sul e mais quatro municípios, era uma bacia sedimentar coberta por gelo. Com o passar do tempo, parte da Amazônia foi se transformando em savana e a terra foi ficando seca.

Na curva do rio
Mas não é apenas na cidade que as ondulações predominam. De acordo com Elízio Ferreira Frade Júnior, os mesmos fenômenos geológicos que deram origem aos morros de Cruzeiro do Sul, também influenciaram a formação de uma bacia hidrográfica diferenciada.

“Os rios do Acre, principalmente nesta região do interior, têm características diferentes dos rios de outros estados do Brasil. Essa diferença é em virtude da mudança que ocorreu na formação do solo. Quando a terra encolhe, a água dos rios procura outros caminhos para continuar sua passagem”, comenta.

Essas características do revelo, segundo Frade Júnior, limitam o setor da agricultura familiar, mas, em contrapartida, favorecem o desenvolvimento de atividades como a piscicultura.

“Estamos na região próxima ao Oceano Pacífico, onde ainda existe a maior concentração de floresta nativa do mundo, o volume de água que cai aqui é elevadíssimo, cerca de 2,2 mil milímetros por ano, enquanto em outros estados que estão fora da Amazônia, esse volume é no máximo de 1,3 mil milímetros por ano. Quanto mais chuva, o solo fica mais fraco para o plantio,  por outro lado, o relevo nas partes baixas da terra retém a água o que facilita a construção de tanques para a criação de peixes” diz.

Ladeira Paraíba, Cruzeiro do Sul (Foto: Francisco Rocha/G1)

Ladeira do Paraíba, em Cruzeiro do Sul (Foto: Francisco Rocha/G1)

Condicionamento físico

Subir e descer ladeiras todos os dias é algo natural para os cruzeirenses, um costume que acaba trazendo benefícios para a saúde.

O professor de educação física, Thaumaturgo Lima Costa, explica que o exercício nas ladeiras da cidade ajuda no condicionamento físico da população, fortalece a musculatura do corpo e ajuda a perder peso. Por outro lado, dificulta para quem tem problemas nas articulações, problemas cardíacos e respiratórios.

taxistas_subindo_a_ldeira“As pessoas que andam a pé em Cruzeiro do Sul, têm um condicionamento físico, cardíaco e respiratório bem melhor do que as pessoas que andam a pé em cidades planas”, enfatiza.

Mesmo acostumado às ladeiras, o pintor José do Nascimento Souza, de 29 anos, reconhece que às vezes é vencido pelo cansaço. “Mesmo estando acostumado o corpo ainda sente, quem não tem um bom preparo físico não consegue subir algumas ladeiras, porque são muito altas, a gente fica cansado”, diz.

Os taxistas também reclamam que devido as inúmeras ladeiras, sobem também os custos com gasolina e desgasta mais rápido o motor do veículos. “Para trabalhar aqui só serve se for carro de 1.4 pra cima, caso contrário fica nas ladeiras. O motorista também precisa ser bom para não estourar o motor porque força muito”, diz Jarandi Gonçalves que trabalha na praça há mais de dez anos.

A façanha de subir e descer os morros em Cruzeiro do Sul é vivida diariamente por alunos da Escola de Ensino Fundamental São José. Construída no topo de um morro, no ano de 1956, por arquitetos alemães, tinha como única via de acesso uma escada com cerca de 60 metros de subida e mais de 120 degraus.

Escada de escola em Cruzeiro do Sul tem cerca de 60 metros (Foto: Francisco Rocha/G1)Escada de escola em Cruzeiro do Sul tem cerca de 60 metros (Foto: Francisco Rocha/G1)
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Anos depois, uma nova entrada foi realizada, mas segundo a diretora Sernízia Araújo Correia, a escada continua sendo utilizada principalmente pelos professores de educação física para preparação dos alunos que participam de competições escolares. “Essa escada já foi o principal acesso à escola, hoje os alunos chegam mais pela frente que é mais plano. Quem usa mais são os professores de educação física para preparar o condicionamento físico dos alunos que participam de competições nos jogos escolares”, explica a diretora.

Francisco Rocha Do G1 AC