Ilzamar Mendes relembra vida ao lado do ambientalista. Fotos mostram o cotidiano de Mendes em Xapuri, AC.

Chico Mendes trabalhando em corte de seringa (Foto: Arquivo Pessoal)
Chico Mendes trabalhando em corte de seringa (Foto: Arquivo Pessoal)

Yuri Marcel Do G1 AC

Um tiro de espingarda calibre 22 disparado na noite do dia 22 de dezembro de 1988 matou o ambientalista Chico Mendes, deixando sua mulher Ilzamar Mendes viúva e os dois filhos do casal, Elenira e o Sandino, órfãos de pai. Vinte e cinco anos depois, Ilzamar conta que a dor diminuiu, mas a saudade continua, assim como a incapacidade de perdoar os assassinos.

“Infelizmente eu ainda não estou preparada para dizer ‘eu perdoo’. Não desejo mal, mas não quero nenhum contato, nem aproximação. Que eles vivam em paz e que a justiça seja feita. Porque se a do homem falhou, ou é falha, a de Deus não falha. Se eles ainda não pagaram o que fizeram comigo e meus filhos, com certeza da justiça divina eles não vão escapar”, desabafa.

A viúva diz que encontrou no legado deixado pelo marido força para continuar. “A gente convive com a saudade. O Chico está sempre nas nossas memórias. Todos os dias, toda a data de aniversário dele, nas conversas com a Elenira e o Sandino, ele sempre vai estar presente. Mas o que faz a gente conviver com a perda é o legado que ele deixou. São vários ‘Chico Mendes’ no Acre, no Brasil e no mundo que abraçaram esta causa, esta luta que o Chico começou”, diz.

Chico Mendes e Ilzamar no dia do casamento (Foto: Arquivo Pessoal)
Chico Mendes e Ilzamar no dia do casamento(Foto: Arquivo Pessoal)

Reencontro

Ilzamar relembra que conheceu o seringueiro ainda criança. “Ele foi meeiro do meu pai. Foi ele quem me alfabetizou, eu e meus seis irmãos. Por alguns anos, ele se afastou, na época que começou a montar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, com o Wilson Pinheiro [que seria presidente do sindicato]. Depois de anos, a gente se reencontrou de novo. Veio o namoro e, após três anos, o casamento”, relembra.

De acordo com a viúva, Chico Mendes era uma pessoa especial, humilde, carinhosa e dedicada à família. Por causa dos compromissos com o sindicato e a luta pela preservação da floresta, ele viajava muito, chegando a passar até um mês fora de casa. Ilzamar, no entanto, diz que era compreensiva. “Sempre entendia esse lado, estava ajudando, aguardando com muito amor e carinho”, diz.

Perseguição

Entre as décadas de 1970 e 1980, com a chegada ao Acre dos “paulistas”, como eram chamados os pecuaristas vindos das regiões Sul e Sudeste do país, começaram os conflitos de terra no estado. Os fazendeiros haviam comprado áreas de floresta dos antigos donos dos seringais e tentavam expulsar os seringueiros que viviam nesses locais para derrubar árvores e transformar as áreas em campos de pasto. Os seringueiros reagiram e alguns perderam a vida por isso, sem que os culpados fossem punidos.

Chico Mendes incomodava cada vez mais os fazendeiros da região, seja realizando “empates”, como eram chamadas as manifestações promovidas pelos seringueiros para impedir derrubadas, ou denunciando a devastação da floresta amazônica para instituições internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU). Com isso, as ameaças a ele e sua família aumentavam.

“A perseguição era constante, [a ponto] de eu ver os pistoleiros em frente a nossa casa, todos armados. Estacionavam as caminhonetes, sentavam na carroceria, levantavam a blusa e mostravam o revólver. Eu via que realmente a qualquer hora ia acontecer o pior com o Chico”, lamenta a viúva.

Dias contados

Ilzamar relata que, nos dias que antecederam a morte de Chico Mendes, ele já dizia que estava com os dias contados. “Em 15 de dezembro, dia do aniversário dele, ele me chamou até o quarto, sentou as crianças no colo, olhou para nós três e disse que aquele seria o último aniversário que passaria conosco. E isso foi ruim. Era uma facada no peito por saber que aquela pessoa que tanto você ama, que desenvolvia um trabalho importante, tanto para o Acre, como para o Brasil e para o mundo, estava sendo perseguido e ameaçado de morte”, conta.

Ilzamar confessa que o medo de perder o marido fez com que ela tentasse convencê-lo a fugir. “Falei pra ele: ‘largue tudo, abandone tudo que você faz e vamos embora’. Aí, ele olhou para mim e disse: ‘para onde? nós não temos para onde ir embora’. Eu rebati: ‘vamos morar em um seringal bem longe, com 4 dias de viagem no meio da mata pra que ninguém possa te encontrar’. Aí ele falou: ‘não posso fazer isso porque não vou trair os meus companheiros e a minha causa é justa. Eu sei que, se não valer a pena pra mim, vai valer para os nossos filhos e para todas as outras crianças que vão aprender sobre toda a luta que eu defendo'”, relembra.

Chico Mendes em momento de descontração com a família (Foto: Arquivo Pessoal)
Chico Mendes em momento de descontração com a família (Foto: Arquivo Pessoal)

Morte

Ilzamar conta que, como a casa em que moravam não tinha banheiro interno e ela já vivia com medo, sempre deixava um balde com água dentro da residência para que Chico Mendes não precisasse sair para tomar banho. Porém, na noite do crime, o seringueiro decidiu tomar banho nos fundos de casa e levar junto o filho Sandino, que tinha então dois anos, mas Ilzamar não deixou. “Pedi o Sandino e tirei do colo dele. Quando eu tentei caminhar até a sala, em um espaço de tempo de menos que dois minutos, ele foi atingido no peito.”

No momento em que viu o marido caído, a mulher conta que, apesar do desespero, já sentia como se soubesse que aquilo ia acontecer. “Por tudo que ele já vinha me falando, tudo que eu já estava vendo. Quando eu ouvi o tiro, a sensação foi a mesma de quando acontece o que já era esperado”, diz.

Chico Mendes ao lado da mulher e da filha Elenira (Foto: Arquivo de família)
Chico Mendes ao lado da mulher e da filha Elenira (Foto: Arquivo de família)

Darly e Darci

Nos dias que se seguiram à morte de Chico Mendes, houve comoção mundial pela partida do seringueiro. Diferente dos casos de outros líderes sindicais mortos no Acre dos anos 80, os suspeitos de planejar e matar Mendes foram logo identificados e presos. Eram eles o fazendeiro Darly Alves da Silva e seu filho Darci Alves Ferreira. A viúva de Chico Mendes, entretanto, chegou a pensar que eles sairiam impunes. “Na hora eu até achava, a exemplo de outros casos como o do Ivair [Higino, morto em junho de 88] e do Wilson Pinheiro [morto em junho de 80], que todos ficariam impunes.”

Darly e Darci foram condenados em 1990 a 19 anos de detenção. Eles fugiram da prisão em 1993, e foram recapturados em 1996. Em 1999, Darly saiu do presídio para cumprir o restante da pena em prisão domiciliar, alegando problemas de saúde. Darci, no mesmo ano, ganhou o direito de cumprir o restante da pena em regime semi-aberto.

Porém, mesmo com a condenação de Darly e Darci, Ilzamar não acredita que todos os responsáveis pela morte do marido tenham sido punidos. “Na minha opinião, existem pessoas por trás de tudo isso que deveriam ter sido investigadas e presas. Porque o Darcy disparou a arma, o Darly organizou, mas a gente sabe que existiam outras pessoas. Não eram só eles que estavam interessados na morte do Chico”, ressalta.

Ela lamenta ainda que os condenados não tenham cumprido toda a pena em regime fechado. “O Darly passou muito pouco tempo na cadeia, ficou foragido. O Darcy também. Hoje, infelizmente, eles circulam livremente na cidade de Xapuri, onde a gente tem o desprazer de conviver em restaurantes, fila de banco, na praça. Aonde a gente vai. Quem perdeu uma pessoa tão querida, que tanto nos faz falta, fomos nós: eu e meus filhos, companheiros e o movimento que o tinha como uma base maior dessa luta.”