SUDESTE ASIÁTICO:Consumo De Carne Canina Fomenta Mercado Ilegal Milionário

homem que você imaginaria encontrar em um matadouro de Hanói
homem que você imaginaria encontrar em um matadouro de Hanói

FonteKATE HODAL

Em países do Sudeste Asiático, o consumo de carne canina tem longa tradição, e a demanda crescente fomentou um mercado negro que despacha cerca de 300 mil cães ao ano entre a Tailândia e o Vietnã, via Laos. Operações tentam coibir o tráfico, mas enfrentam a barreira da corrupção e do poder econômico dos contrabandistas.

Nguyen Tien Tung é o tipo de homem que você imaginaria encontrar em um matadouro de Hanói (capital do Vietnã): atlético, frenético e imundo, com a camiseta branca salpicada de manchas de sangue, os shorts de jeans frouxos sobre as pernas tesas e arranhadas, os pés espraiados em sandálias de plástico.

Debruçado sobre sua bancada de metal, entre duas peças de carne penduradas, o homem de 42 anos vigia seu abatedouro -um pátio de concreto a céu aberto, que dá para uma rua movimentada.

Outras duas peças sem pele, alvas e brilhantes, são lavadas por um dos primos de Nguyen. Bem ali ao lado ficam as jaulas, cada uma com cinco cães, todos mais ou menos do mesmo tamanho, alguns com coleiras.

Nguyen se aproxima de uma jaula e acaricia o cão mais próximo da porta. Tão logo o bicho começa a abanar o rabo, ele agarra uma barra de metal e acerta em cheio a cabeça do cão. Depois, rindo alto, bate a porta da jaula.

Em uma rua do verdejante bairro de Cau Giay, não muito longe do negócio da família Nguyen, fica um dos restaurantes mais famosos da cidade, o Quan Thit Cho Chieu Hoa, que só tem uma iguaria no menu.

Há cozido de cachorro, servido em sopa de sangue; churrasco de cachorro com capim-cidreira e gengibre; cachorro ao vapor com pasta de camarão; vísceras de cachorro cortadas fininhas como linguiça; e cachorro no espeto, marinado na pimenta com coentro.

Entre os muitos restaurantes especializados em carne canina de Cau Giay, esse é o mais cultuado. Nele receitas tradicionais são servidas em um ambiente tranquilo à beira de um canal.

“Eu sei que soa esquisito que eu coma aqui, já que eu tenho cachorros e nem me passaria pela cabeça comê-los”, diz Duc Cuong, um médico de 29 anos, enquanto dá uma mordida num bocado de vísceras caninas que acaba de enrolar numa folha de manjericão. “Carne de cachorro é gostosa e faz bem.”

Ninguém sabe ao certo quando os vietnamitas começaram a comer carne canina, mas o consumo tem longa tradição. E sua popularidade vem aumentando: segundo ativistas, hoje 5 milhões de animais são comidos por ano.

Carne de cachorro é um hit em coquetéis, reuniões familiares e ocasiões especiais. Supostamente ela aumenta a virilidade, eleva a temperatura sanguínea nas noites frias e serve como um bom auxiliar terapêutico. É vista como uma carne abundante, de alto valor proteico, uma alternativa saudável ao porco, ao frango e à vaca que compõem o menu vietnamita diário.