“A dignidade da política é a dignidade do homem”

A filósofa judia Hannah Arendt – que não aceitava ser chamada de filósofa -, foi uma das expressões mais significativas do pensamento politico do século XX. Perseguida pelo nazismo todo seu trabalho foi dirigido para a dimensão politica do ser. É dela a frase acima “a dignidade politica é a dignidade do homem”, que expressa à intrínseca realização do homem como animal politico, o zoom politikom, de Aristóteles, na vida social da cidade que, os gregos, grosso modo, chamavam de Polis (também era Estado).

Qual é a dignidade ou o sentido de dignidade na politica brasileira dos dias atuais? É possível dizer que os políticos no Brasil são indignos? Por isso a política é indigna? Mas, quem são os políticos no Brasil? Para Aristóteles, todos os homens são políticos. Eleitores e seus representantes que se relacionam através da ética na vida social, na vida pública. Dignidade da política e dignidade do homem é um valor da ética. Nos falta então ética?

Por que a política brasileira está mergulhada nesse mar de lama de corrupção?

_ Porque nos tornamos coisas, produtos.  Manipulamos e somos manipuláveis. Como tudo na modernidade, estamos à venda. Somos produtos de marketing. A técnica, segundo Martim Heidegger, nos alienou bebendo ele mesmo na fonte de Karl Marx para tal conclusão, a coisificação.

Quem tem dinheiro compra eleitor, compra partido, compra eleição, compra tudo. Produz uma imagem que é a negação dele próprio. Sem conteúdo, sem ética, sem valores.  Somos a geração politica photoshop. A razão cínica, ou, como Zygmunt Bauman diz: modernidade liquida. Atualizando ainda mais, vivemos a era da pós-verdade. De um novo relativismo moral experimentado pelos gregos no pensamento sofista. Estamos sendo a medida de todas as coisas.

Pensar – como fazem alguns -, que a religião é resposta para corrigir a deformação moral do homem, da sociedade e da politica brasileira agrava ainda mais a situação. A religião está contaminada pela má fé, pela coisificação, pela ganância, pelo “querer poder” no mesmo nível (talvez mais ainda) do que na politica. Se a resposta para a politica for esse (deus) anunciado, que transforma quem o segue em milionário da noite para o dia, estamos completamente perdidos. Poucos ficando ricos e muitos ficando pobres. O rebanho.

A resposta para a crise que estamos vivenciando deve renascer no zoom politikom. É ele o responsável pela reconstrução da estrutura e do tecido social. A politica é a extensão do ser que se dilata para o futuro. Dignidade é um valor inerente aos dois. Quando o brasileiro descobrir que o poder nasce na sociedade e não no Estado, que quem detém o poder não é o que representa, mas o representado será o primeiro passo em uma mudança profunda, mas também muito dolorosa que nos espera. Isso é democracia. Isso é dignidade!

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