Coluna do Mario Roberto

EQUÍVOCOS E MITOS DA MATEMÁTICA

“Não se aprende matemática, faz-se”. J.C. Sanches Huete

Por Mário Roberto Machado Torres

A matemática está presente em nossas vidas, em nosso cotidiano, em nosso mundo. O Nosso universo é matemático, onde números, situações, os problemas, o raciocínio, o pensar, o calcular, se localizar, estimar, medir, abstrair, ler e compreender informações são ferramentas básicas para o exercício da cidadania e a inserção do ser humano no mundo. Para ler e compreender nossa realidade necessitamos do conhecimento matemático, pois cada vez mais a sociedade utiliza de conhecimentos científicos e recursos tecnológicos dos quais os cidadãos precisam se apropriar para viver melhor.

A matemática sempre esteve presente em minha trajetória. Está fortemente ligada com minha formação. Dentro e fora da escola, mantemos uma boa relação. Ainda muito jovem lecionei essa disciplina em escola pública, por 10 anos. Cheguei a estudar licenciatura em matemática na UFAC, não chegando a concluir o curso (foram 5 semestres). Em seguida conclui o curso de pedagogia, passando a atuar como professor das disciplinas pedagógicas do extinto curso de magistério e coordenação pedagógica. Interesse-me pelo ensino da matemática, especificamente das séries iniciais do ensino fundamental, quando passei a estudar mais sobre o assunto. Foram nesses estudos, aliados a experiência de sala de aula, que foi vindo à luz alguns equívocos e mitos em torno dessa bela e dinâmica ciência.

A matemática é uma criação da mente humana. Foi criada e vem sendo desenvolvida pelo homem em função de necessidades sociais. Não apenas por um único homem, mas por povos em diferentes épocas e lugares. A matemática que temos hoje é o resultado das contribuições de todos os povos desde a antiguidade.

Vários foram os mitos criados ao longo de sua trajetória. O principal deles é que a matemática é difícil de aprender. A matemática é a mais antiga das ciências, por isso é difícil. Já caminhou muito, já sofreu rupturas e reformas. Caminhou muito justamente por ser fácil.

Um outro mito é o de concebê-la como exata, pronta e acabada. Quantas vezes ouvimos que 2 + 2 = 4 e sempre será. Contudo se assim ela o fosse, ainda estaríamos contando usando pedrinhas. A história da matemática é fascinante e dentre outras coisas nos revela a sua grande evolução no decorrer dos tempos. Cada povo com sua matemática. Ela não é estática, é dinâmica e assim devemos concebê-la, como uma ciência em construção.

Outro grande mito é o de que a matemática é para poucos, para mentes brilhantes, para grandes gênios. Todos têm a capacidade para aprender, nascemos com potencial a ser desenvolvido. O que existe são ritmos diferentes. Desse mito decorre outros como: mulher não aprende matemática; que a matemática é um dom. Já pensou isso! Antes de nascer somos “escolhidos” para saber uma coisa ou outra. Essa é uma ideologia muito consistente em nosso meio, principalmente nas escolas. Costumeiramente ouvimos pessoas dizer que não conseguem aprender matemática, que são incapazes, contrariando todos os estudos sobre o cérebro humano.

O problema reside justamente no ensino da matemática. È equivocado, inadequado, professores que complicam, pois se acham diferenciados. As pessoas costumam classificar como inteligentes aqueles que têm “facilidade” em aprender matemática. Afinal que matemática é ensinada nas escolas?

Praticamente a matemática tem-se resumido, principalmente na educação básica, ao ensino de procedimentos e regras de cálculos. Percebe-se o afastamento da matemática da realidade, dando a impressão que a mesma é de outro mundo (separação do mundo das idéias do mundo físico, como Platão dizia). Não se ensina conceitos, ensina-se a memorização de definições que logo são esquecidas (logo após as provas). O ensino baseia-se predominantemente apenas no livro didático; exige-se somente a memorização, não a operativa, mas a mecânica e repetitiva; o método mais utilizado é a exposição de modelos e exemplos; não há atividades lúdicas (aproveitando a natureza da criança) nem materiais concretos (a criança somente raciocina quando pode manipular os objetos a que seu raciocínio se refere. Ela só consegue abstrair em outras fases da vida); não se respeita às respostas dos alunos e espera-se a resposta desejada; exige-se rapidez no raciocínio, como se fosse uma competição, onde o bom aluno é aquele que responde primeiro; a linguagem usada é imprecisa e vaga; não há desafio; não se apresentam situações variadas; não há incentivo para as crianças desenvolverem estratégias; os problemas apresentados só existem na escola, não são familiares e buscam constantemente a operação ou conjunto de operações na resolução do problema sem relação lógica, porque se têm a concepção de que é preciso fazer sempre “alguma operação”; a atividade central da aula é a instrução; a relação professor-aluno é vertical, separando quem sabe matemática (quem ensina) e quem não sabem (quem aprende).

Com esses equívocos no ensino da matemática, os mitos são reforçados e cada vez mais fortalecidos, fazendo com que muitas pessoas tenham aversão sobre a matemática e assim excluindo-as do pleno exercício da cidadania, pois sem a matemática, a compreensão de nosso mundo fica prejudicada. Não esqueçamos também que a matemática contribui para bagagem cultural das pessoas e, portanto, seu ensino deve transformar-se em processos de descobertas por parte dos alunos.

Coluna do Mario Roberto

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