A chuva e suas lembranças que deixava as ruas da cidade de Assis Brasil um lamaçal

Um dia chuvoso daqueles conhecidos do inverno acreano. Muita água escorria pelas ruas de barro vermelho deixando a cidadezinha um lamaçal só.

 Texto: Jerry Correia 

Naquela época pouquíssimas ruas do município eram pavimentadas. Por isso quando descia a chuva forte, a lama tomava de conta. Era muito comum ver as pessoas saírem de casa com sacolas plásticas amarradas nos sapatos. Parece brincadeira, mas era uma saída para não sujar o calçado na hora de ir trabalhar ou passear.

Diferente dos adultos, a criançada adorava quando caia uma chuva bem forte e demorada. Meninos e meninas ganhavam as ruas enlameadas para se divertir com as mais diferentes e inocentes brincadeiras. Começava com a brincadeira da “pira”, depois a da “sandália”, tinha também o “31 alerta”, e finalmente tudo terminava em uma grande ladeira de barro vermelho bem molhada que se transformava em um enorme escorregador. Era ali que a criançada perdia a noção do tempo e só voltava para casa debaixo dos gritos das mães preocupadas.

A chuva me faz lembrar aquele monte de gente na beira do rio admirado com a “cabeça d’ água”. Era quando as águas do velho rio Acre subiam rapidamente depois de alguns dias de chuva nas cabeceiras.

De repente o sino badalava na curva do salão do Sr. Alonso. Era o Major Salino. A maior embarcação que trazia óleo diesel para manter funcionando o gerador de energia da cidade.

Todo mundo na beira do rio fascinado com as águas e o movimento no porto. Era um sobe e desce no barranco liso. Poucos trabalhando e muitos olhando e jogando conversa fora.

Para subir o barranco escorregadio com os camburões de 200 litros de óleo diesel só mesmo na força bruta. Era aí que aparecia o pequeno Aprígio com seu boi de arraste. Todos ficavam admirados com a coragem e maestria do pequeno menino que dominava tão grande e forte animal. Descia até a beira do rio, amarrava o camburão na zorra e ordenava que o boi puxasse a carga até subir o barranco. Fazia isso durante todo o dia até descarregar o enorme batelão do Major Salino.

Chegava à beira do rio o caminhão do Kate carregado de botijão de gás. Rapidamente os homens começavam a atirá-los barranco abaixo. O trabalho se transformava em diversão. A criançada chegava pra perto e ficava admirada vendo as botijas rolarem até o rio. Lembro perfeitamente do barulho que fazia quando uma botija tocava a outra lá embaixo do barranco.

O porto era o local mais movimentado e divertido da cidade. Tinha uma velha e quebrada escadaria. Do lado ficava a marcenaria municipal e bem atrás a famosa movelaria do Olegario, Aluísio e Sr. Valdir. O local era mais frequentado do que o mercado municipal. Na verdade a grande especialidade dos proprietários e dos frequentadores era colecionar garrafas vazias de 61 da cana arriada. De longe se ouvia as gargalhadas do Olegario e do Sr. Valdir que entre um prego e outro, diziam eles, “uma dose pra calibrar os nervos”. Sr. Valdir, o mais velho dos três amigos continua alegrando a cidade com suas risadas contagiantes, enquanto Olegário e Aluísio partiram para outra vida deixando boas lembranças.

A chuva nos traz boas recordações…

Antiga movelaria (Foto: abaixo) dos amigos Olegário, Aluísio e Valdir.

A chuva e suas lembranças em Assis Brasil

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